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    O Brasil está bom sim, você é que não é petista o suficiente
    Revista Oeste·26 de set., 11:00

    O Brasil está bom sim, você é que não é petista o suficiente

    Segunda-feira tive um interessante debate com um intelectual de esquerda que, contra todas as possibilidades, dizia gostar de meus ensaios. Meu amigo Rodrigo Faria nos apresentou e fez as boas maneiras de arranjar uma ligação de vídeo para que eu fosse, ao mesmo tempo, bajulado e censurado pelo meu admirador vermelho. No tocante aos meus escritos, seu gosto se direcionava especialmente aos textos sobre literatura e àqueles nos quais critico o modo burro por meio do qual nos relacionamos com as redes e tecnologias.

    + Entenda o que é Política em Oeste Pelo que logo percebi, ele era membro da ala raiz do socialismo, isto é, mais preocupado com salários justos e moradias do que com pronomes neutros ou adequações filosóficas a genitálias estudantis; ele me pediu, inclusive, para apresentá-lo ao Antonio Risério e me estimulou a escrever algum romance distópico do Brasil atual. Estava tudo indo muito bem, até que, por minha culpa, minha tão grande culpa, eu falei sobre as eleições. v=GYpzATGBOig&t=1s Por algum momento, achei que ele não votaria no Lula, já que este, mesmo que com a perícia de um mamute em uma loja de taças, se vendeu completamente à pauta woke que ele parecia desprezar.

    Foi quando me disse que, apesar disso, inevitavelmente votaria no petista. Obviamente, a conversa seguiu para o campo das demonstrações de destroços versus propagandas de horário eleitoral, e foi nesse momento que ele soltou uma das frases mais esclarecedoras em termos de política que escutei nos últimos anos: “Você só acha que as coisas vão mal porque não é um petista”. Para meu novo colega, ser petista abre uma espécie de cosmologia particular em nossa realidade, um portal para o idealizado, uma readaptação dos fatos dirigida por roteiristas do partido.

    Nesse mundo, o Brasil está de vento em popa, os juros estão ok, os impostos habitam um patamar digno e o povo realmente está comendo picanha. v=pJs7ug1C400&t=2s Percebam que tal espécime não é o esquerdista “eterno esperançoso”, como costumo denominar em meus textos, aquele que acredita que, agora sim, no quarto mandato, Lula realmente colocará em prática o seu fiat comunismos; o meu novo colega é um paralelo militante, aquele que acredita piamente que o novo mundo já começou. Que as arestas que podemos enxergar, aqui ou acolá, são apenas peripécias de um autor/presidente hábil que permite tais solavancos apenas para deixar a estória mais interessante.

    Fico realmente instigado em saber o que tais tipos de militantes pensam quando veem as Casas Bahia fechando trezentas portas; quando notam que o cidadão de classe média gasta cerca de 42,5% da sua renda bruta anual apenas para pagar tributos embutidos no consumo e na renda; ou ainda quando percebem que o principal parceiro do governo de seu deus socialista é um ministro do STF, que vivia uma vida paralela com um banqueiro a quem servia a partir da máquina estatal da Suprema Corte. Imagino que, tal como um sonâmbulo perpétuo que, ao tocar na maçaneta de seu quarto, pensa estar tocando nos seios de uma ninfa, eles devem se contentar com a ilusão e se deliciar no devaneio em vez de se aferrarem à dura lucidez. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez seu último discurso na Assembleia-Geral da ONU neste terceiro mandato | Foto: Reprodução/YouTube Nações Unidas Durante a conversa com meu admirador petista, lembrei-me de um dos raros professores de filosofia sensatos que tive, o dr.

    Maurilio Camello. Certa vez, confessei a ele que queria partir para a especialização em filosofia política após a graduação. Logo percebi em seu semblante certo ar de decepção contida.

    Ele era professor de filosofia medieval e metafísica e, por isso, pareceu-me, no momento, que seu rosto apenas emitia uma espécie de ciúme ante a minha decisão acadêmica, nada mais. Porém, antes de nos despedirmos naquele dia, ele disse: “A política é aquilo que o filósofo estuda quando para de investigar o Ser e começa a justificar mesquinharias”. Sempre que me deparo com tais patifarias de ilusionismo político, seja na direita ou na esquerda, eu me recordo dessa frase do professor Maurilio; é impressionante como ela cai bem para nossos dias, para o nosso país.

    Meu colega vermelho, intelectual com carteirinha do MEC e tudo, especializou-se na promessa, sorveu — durante décadas a fio — empelotadas mamadeiras ideológicas e se encarregou de fundamentar o sonho com boa argamassa retórica; aprendeu a usar notas de rodapé para acrescentar camadas de interpretações aos fatos e talvez até tenha adquirido a nobre arte de sovar as estatísticas enquanto unta a opinião pública com farinha velha. O resultado de tal receita não poderia ser outro: um homem que vê fracasso e anuncia sucesso. O post O Brasil está bom sim, você é que não é petista o suficiente apareceu primeiro em Revista Oeste .

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