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    O carro usado barato está desaparecendo nos Estados Unidos
    InvestNews·19 de set., 15:28

    O carro usado barato está desaparecendo nos Estados Unidos

    A negociação recente de Benjamin Young em uma loja de carros usados mostra como a crise de poder de compra nos Estados Unidos se tornou severa. O morador da Flórida pagou US$ 30 mil, cerca de R$ 154 mil, por um Toyota 4Runner equipado com os itens que queria — mas o SUV já rodou aproximadamente 145 mil quilômetros e tem 12 anos. Em 2023, ele comprou um Toyota Venza com quilometragem semelhante pela metade desse preço.

    “Definitivamente estou levando menos pelo meu dinheiro”, afirmou Young, engenheiro de processos de 48 anos que vive perto de Jacksonville. O mesmo acontece com os milhões de consumidores que hoje procuram veículos seminovos. Um carro usado com preço entre US$ 10 mil e US$ 15 mil — de aproximadamente R$ 51 mil a R$ 77 mil — tem em média quase nove anos e cerca de 158 mil quilômetros rodados, segundo o site de pesquisa automotiva Edmunds.

    Em 2019, o mesmo orçamento comprava um carro com menos de cinco anos e aproximadamente 93 mil quilômetros. Leia também Videos Fim do ‘efeito seminovo’: por que o preço dos carros usados cai? Negócios Blindados: a indústria bilionária que cresce de carona no medo de assaltos O aperto começa nos veículos novos, vendidos por preços recordes e que, mais tarde, chegam ao mercado de usados ainda muito valorizados.

    Um 4Runner novo custa hoje cerca do dobro do que Young pagou, enquanto até um Honda Civic básico parte de US$ 25 mil, ou aproximadamente R$ 129 mil. Para os compradores com orçamento mais apertado, isso significa cada vez mais aceitar veículos mais velhos, com quilometragem maior e mais propensos a precisar de reparos. É o mais recente sinal de como o tradicional sonho americano está cada vez mais difícil de alcançar.

    Os eleitores reconduziram o presidente Donald Trump à Casa Branca, em parte, por sua promessa de reduzir os preços. Mas a inflação voltou a superar 3% — nível em que estava quando Trump tomou posse — desde que o presidente entrou em guerra com o Irã no fim de fevereiro, provocando uma disparada dos preços da energia. Na semana passada, as taxas dos financiamentos imobiliários dos Estados Unidos subiram ao maior nível em mais de um ano, e a confiança do consumidor ficou abaixo das estimativas em setembro.

    Pesquisas mostram os democratas à frente na tentativa de retomar a Câmara dos Representantes nas eleições legislativas de novembro e com boas chances de conquistar o controle do Senado, enquanto os índices de aprovação de Trump permanecem baixos. Nesta semana, o Federal Reserve elevou os juros, e investidores apostam em novas altas para conter a inflação. Isso tornará o crédito ainda mais caro para americanos que já enfrentam uma mudança estrutural no mercado automotivo.

    Nas duas décadas anteriores à pandemia de Covid-19, os modelos novos tinham preços acessíveis e um número maior de compradores recorria ao leasing. A competição entre as montadoras estimulava grandes descontos, contratos de leasing baratos e financiamentos com juro zero para impulsionar as vendas. Todos os anos, esses contratos abasteciam as lojas de usados com uma sequência de carros pouco rodados.

    Os problemas nas cadeias de suprimentos durante a pandemia prejudicaram as vendas, mas ensinaram uma lição às fabricantes: produzir menos veículos e concentrar a oferta em modelos mais caros gera lucros maiores e recompensa por parte dos investidores. Depois de anos com as ações praticamente paradas, General Motors e Ford Motor voltaram a atrair a atenção dos investidores, em parte graças à força dos lucros sustentados por preços mais altos. As duas elevaram suas projeções de resultado neste ano.

    No balanço do segundo trimestre, a GM destacou seu preço médio de venda de US$ 52 mil por veículo, cerca de R$ 267 mil, e incentivos comerciais inferiores aos da maioria das concorrentes. A Ford apresentou resultado semelhante e afirmou que os preços líquidos ajudaram a elevar seu lucro trimestral em US$ 200 milhões, aproximadamente R$ 1,03 bilhão. A GM começará a vender novas versões das picapes Chevrolet Silverado e GMC Sierra ainda neste ano.

    Como os compradores pagam mais por modelos redesenhados, o diretor financeiro da GM, Paul Jacobson, afirmou a investidores em um evento do Morgan Stanley neste mês que isso “significa que existe potencial para elevar preços”. Embora isso possa soar como “inflação da ganância” — a preferência por margens elevadas em vez da conquista de novos compradores —, parte do movimento decorre da necessidade, segundo Diane Swonk, economista-chefe da KPMG. As tarifas de Trump custaram bilhões de dólares às montadoras, e a guerra com o Irã elevou os custos de energia, especialmente do diesel usado pelos caminhoneiros que transportam peças e veículos pela América do Norte.

    O carro novo médio agora é vendido por US$ 50 mil, cerca de R$ 257 mil. Como os automóveis perdem aproximadamente 40% do valor depois de três anos, o veículo usado médio custa mais de US$ 30 mil, ou mais de R$ 154 mil. Em 2019, o preço de venda era de cerca de US$ 20 mil, aproximadamente R$ 103 mil, segundo a Edmunds.

    Esses preços inflados acabam chegando ao mercado de usados, que também enfrenta estoques menores devido à queda do leasing. Antes da Covid, os americanos faziam contratos de leasing para cerca de 4 milhões de veículos por ano, e a maioria deles era vendida como usada depois de três ou quatro anos. Neste ano, o setor caminha para fechar 2,5 milhões de contratos, o que poderá restringir o mercado de usados por um longo período, segundo Ivan Drury, diretor de insights da Edmunds.

    De acordo com Drury, as montadoras deixaram de oferecer contratos de leasing com juros baixos como faziam no passado porque os incentivos se tornaram caros demais no atual ambiente de juros. Por isso, preferem vender os veículos. “Simplesmente não temos mais esse giro”, afirmou Swonk.

    Carros usados vendidos por menos de US$ 20 mil, cerca de R$ 103 mil, estão mais difíceis de encontrar e têm quilometragem elevada. As concessionárias precisam disputar esses veículos, segundo Rhett Ricart, proprietário de várias lojas em Columbus, Ohio. “Eles são como ouro”, afirmou Ricart.

    ” A competição pelos compradores também é intensa. Amy Hyken, do Kansas, passou meses navegando por sites até encontrar um Lexus NX 250 usado, com menos de 80 mil quilômetros, anunciado por US$ 35 mil, cerca de R$ 180 mil. Mas o carro estava na Flórida.

    Ela precisou gastar US$ 800, aproximadamente R$ 4,1 mil, e esperar mais dois meses para que o veículo fosse transportado até sua casa, perto de Kansas City. Como a entrega atrasou, ela conseguiu recuperar o valor do frete. “É um mercado com menos opções do que no passado”, afirmou Hyken, terapeuta familiar infantil de 58 anos.

    ” Há ainda o risco de que veículos com quilometragem elevada precisem de reparos pouco depois da compra. Embora Young afirme adorar seu 4Runner, o carro apresenta um vazamento de fluido que afeta os amortecedores. As oficinas estão cobrando milhares de dólares — dezenas de milhares de reais — para resolver o problema, e Young discute com a concessionária para que ela assuma o custo.

    “É assim que o mundo funciona agora”, afirmou. ]]>

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