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    O desafio da Gol para transformar voos à Europa e aos EUA em um novo negócio
    InvestNews·23 de out., 20:32

    O desafio da Gol para transformar voos à Europa e aos EUA em um novo negócio

    A Gol começou a voar para Nova York e Lisboa antes mesmo de ter os aviões preparados para operar essas rotas. Para cumprir o cronograma de sua estreia no mercado intercontinental, a companhia recorreu à espanhola Wamos, uma empresa-irmã dentro do Grupo Abra , que fornece aeronaves, pilotos e manutenção. O arranjo permitiu à Gol colocar em prática sua expansão internacional enquanto enfrenta atrasos na preparação dos cinco Airbus A330neo que pretende incorporar à operação.

    Inicialmente esperados até o fim de 2026, os aviões agora devem ficar disponíveis até o primeiro trimestre de 2027. Mais do que uma solução temporária, o uso das aeronaves da Wamos tornou-se parte do processo de adaptação da companhia a um negócio bastante diferente daquele que construiu ao longo de 25 anos, com uma frota padronizada de Boeing 737 e voos principalmente domésticos e regionais. Leia também Negócios Boeing recebe aval para maior 737 após seis anos de espera e acirra disputa com Airbus Negócios Com alta do querosene de aviação, Gol corta rotas.

    Flórida sai da malha A nova operação exige pilotos treinados em outro modelo de aeronave, uma estrutura de manutenção distinta, serviços de cabine executiva e capacidade para transportar volumes maiores de carga. “Isso é muito maior do que simplesmente colocar um avião para voar. Estamos mudando a forma como a Gol se posiciona no mercado”, afirma Rafael Araújo, diretor executivo de projetos da Gol e do Grupo Abra, em entrevista a jornalistas durante um evento da Airbus em Toulouse, na França.

    Araújo foi designado para coordenar a implementação do projeto, considerado uma transformação importante na companhia após a recuperação judicial nos Estados Unidos, concluída em junho de 2025. O objetivo é conquistar uma parcela maior das receitas com viagens internacionais, especialmente em rotas que permitem cobrar tarifas mais altas. A companhia pretende elevar a participação do mercado internacional para algo entre 20% e 25% de sua oferta ou receita até 2029 ou 2030.

    LEIA TAMBÉM: Madri, a ‘nova Miami’: como as rotas entre Brasil e Europa se tornaram prioridade para a Iberia A expansão coloca a Gol em um mercado já explorado por suas principais concorrentes. Na Latam, as operações internacionais representaram 53% da capacidade oferecida em 2025, enquanto na Azul essa participação foi de 23%, segundo dados das próprias companhias. Os percentuais incluem também voos regionais para outros países da América Latina mas ajudam a dimensionar o peso desse negócio.

    A Latam opera suas principais rotas de longa distância com aviões Boeing 777 e 787, enquanto a Azul utiliza aeronaves da família Airbus A330, a mesma escolhida pela Gol. Além de ampliar o faturamento, a estratégia permite à Gol aumentar a receita em moeda estrangeira , criando uma proteção natural contra oscilações do câmbio, já que parte relevante dos custos das companhias aéreas também é denominada em dólar. A entrada no mercado intercontinental ganhou viabilidade com a estrutura da Abra, controladora da Gol e da Avianca, que já possui experiência com aeronaves de grande porte.

    Segundo Araújo, a possibilidade de transferir aviões entre as companhias do grupo foi importante para reduzir os riscos da decisão. Se uma operação não apresentar os resultados esperados, as aeronaves podem ser realocadas para outros mercados. O contrário também é possível, permitindo acelerar a expansão onde houver demanda.

    Essa flexibilidade deu à Gol mais segurança para assumir o investimento, segundo o executivo. Atrasos e preparação da frota A incorporação dos A330neo, porém, está levando mais tempo do que o previsto. Araújo atribui o atraso à dificuldade de encontrar disponibilidade nos centros de manutenção e obter peças e componentes necessários à preparação das aeronaves.

    São gargalos que afetam fabricantes e companhias aéreas em diferentes partes do mundo. “Não vamos acelerar nada que possa colocar em dúvida a confiabilidade da operação”, afirma. A Gol está na etapa final do processo de certificação junto à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

    Na última fase, a companhia precisa demonstrar que possui equipes, procedimentos e estrutura adequados para operar o novo modelo. O cronograma apresentado por Araújo prevê a conclusão dessa etapa até novembro e o início dos voos comerciais domésticos com os A330neo a partir do dia 18 daquele mês, em rotas para Salvador, Belém e Manaus. A operação nacional funcionará como uma fase de adaptação antes da estreia dos aviões sob operação direta da Gol nas rotas intercontinentais, prevista para meados de fevereiro de 2027.

    Parte dos pilotos mais experientes da Gol está migrando dos Boeing 737 para os Airbus A330. A companhia também contratou profissionais com experiência no modelo e recorrerá temporariamente a pilotos de outras empresas para apoiar o treinamento das tripulações. Comissários e mecânicos também passam por capacitação, inclusive em instalações da Airbus e da fabricante de motores Rolls-Royce.

    Enquanto essa preparação avança, os voos para Nova York, iniciados em julho, e Lisboa, em setembro, são realizados com aeronaves A330 da geração anterior, operadas pela Wamos. No modelo conhecido como wet lease , a empresa espanhola fornece aviões, pilotos, manutenção e seguro. A Gol assume os serviços de solo, incluindo check-in, atendimento aos passageiros e preparação das aeronaves nos aeroportos.

    Isso permite que parte das equipes brasileiras ganhe experiência na operação de voos de longa distância antes da chegada dos novos aviões. A substituição também deve trazer ganhos financeiros. Segundo Araújo, os A330neo podem consumir cerca de 12% menos combustível do que os modelos atualmente utilizados pela Wamos.

    A economia é especialmente importante em um momento de alta do petróleo. O combustível pode representar entre 30% e 40% dos custos de uma companhia aérea, segundo o executivo. “Quando você multiplica essa redução de consumo pela quantidade de voos realizados, estamos falando de muito dinheiro”, diz.

    A conta dos voos internacionais Apesar dos atrasos e da pressão dos custos, a Gol mantém sua aposta nas rotas de longa distância. Araújo afirma que os primeiros resultados comerciais das operações para Nova York e Lisboa são positivos, especialmente nas cabines premium, que apresentam boa ocupação e tarifas médias consideradas saudáveis pela companhia. A avaliação é que os passageiros de negócios, mais presentes nesse mercado, são menos sensíveis aos aumentos de tarifas do que aqueles que viajam a lazer.

    Em muitos casos, também compram passagens mais perto do embarque, quando os preços costumam ser superiores. Essa diferença ajuda a explicar por que a Gol mantém os investimentos no longo curso mesmo enquanto ajusta a capacidade em outras rotas diante da alta dos combustíveis. Mas a rentabilidade não depende apenas dos passageiros transportados para a Europa ou os Estados Unidos.

    A companhia aposta na integração dessas operações com sua malha doméstica, usando o Galeão, no Rio de Janeiro, como centro de conexões. Passageiros que chegam de Lisboa, por exemplo, podem continuar a viagem para destinos como Belo Horizonte, Brasília e Vitória. No sentido inverso, a demanda dessas cidades ajuda a preencher os aviões internacionais.

    Araújo cita Buenos Aires como exemplo dessa integração: a capital argentina já aparece entre as principais origens dos passageiros que embarcam na rota entre Rio e Lisboa. A conexão entre as malhas também pode sustentar a ampliação de frequências domésticas em mercados nos quais a demanda local, isoladamente, não justificaria novos voos. Outra frente é o transporte de cargas nos porões dos A330, fonte de receita que a Gol ainda precisa desenvolver para aproveitar a capacidade dos aviões maiores.

    A companhia também pretende ampliar os destinos internacionais, incluindo Paris, mas só anunciará novos cronogramas quando tiver datas firmes para a disponibilidade da frota. 310 aeronaves em carteira. Segundo ele, uma nova encomenda poderia levar seis ou sete anos para ser entregue.

    Para a Gol, o desafio imediato é concluir a preparação dos aviões e assumir diretamente as rotas que começou a operar com a ajuda da Wamos. A estratégia internacional já saiu do papel. Agora, a companhia precisa demonstrar que consegue executá-la com eficiência e rentabilidade.

    *O InvestNews viajou a Toulouse a convite da Airbus e da Gol. ]]>

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