‘O desafio do Brasil é mais simples: é controlar o crescimento da despesa’, avalia Mansueto Almeida, do BTG
O Brasil precisa controlar o crescimento dos gastos públicos para reduzir estruturalmente os juros , recuperar a capacidade de investimento e sustentar um ciclo de crescimento econômico mais duradouro. A avaliação é de Mansueto Almeida , sócio e economista-chefe do BTG Pactual , para quem o ajuste fiscal deve ser acompanhado de uma agenda de reformas voltada ao aumento da produtividade e à melhoria do ambiente de negócios. “O grande desafio do Brasil é segurar o crescimento do gasto público”, afirma Mansueto no painel “Cenário Macroeconômico”, durante a final da Copa BTG Trader de 2026.
Segundo ele, a expansão das despesas em ritmo superior ao da economia pressiona a inflação, dificulta a redução dos juros e amplia o custo de financiamento do Estado e das empresas. O economista destaca que, nos últimos quatro anos, o crescimento acumulado do gasto público federal foi significativamente superior ao da atividade econômica. Na comparação apresentada por ele, enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) avançou cerca de 11% no período, a despesa federal cresceu aproximadamente 22%.
Esse desequilíbrio, avalia, limita as perspectivas de crescimento e torna mais difícil a redução sustentável das taxas de juros. “Para a gente ter um ambiente de juros mais baixos, que favoreça a cooperação de investimento e um crescimento sustentável, será necessário segurar o crescimento do gasto público”, diz. Mansueto ressalta que o desafio não deve ser reduzido a cortes pontuais de despesas.
O essencial é estabelecer mecanismos que permitam controlar a trajetória dos gastos ao longo do tempo, sobretudo das despesas obrigatórias, que representam a maior parte do orçamento público. “O desafio do Brasil é mais simples: é controlar o crescimento da despesa”, afirma. Na avaliação do economista, o governo precisa explicar à sociedade por que determinadas medidas são necessárias e como elas podem contribuir para preservar os serviços públicos sem comprometer o equilíbrio das contas.
O ajuste, acrescenta, também é importante para evitar que a elevada carga tributária se torne o principal instrumento de financiamento da expansão das despesas. O Brasil já tem uma tributação elevada em comparação com outros países da América Latina, e novos aumentos podem prejudicar a competitividade das empresas. “Não seria bom aumentar a carga tributária.
Tem que controlar o gasto”, afirma Mansueto. Para ele, uma revisão de benefícios e regimes tributários especiais também pode contribuir para reduzir distorções e tornar o sistema mais eficiente, sem necessariamente elevar a arrecadação sobre toda a sociedade. Reformas para destravar a produtividade Além do ajuste fiscal, o economista defende uma agenda de reformas estruturais para ampliar a capacidade de crescimento do país.
O desafio é particularmente relevante porque, segundo ele, parte importante da expansão econômica observada nos últimos anos veio da recuperação do mercado de trabalho, com a redução do desemprego, e não de ganhos expressivos de produtividade. “Para nós conseguirmos crescer economicamente 2,5% a 3% ao ano, nós teremos que ter nos próximos anos um crescimento de produtividade que nós não tivemos nos últimos cinco anos”, avalia. Entre as prioridades está a reforma administrativa, com mudanças nas regras de progressão e remuneração do funcionalismo.
Mansueto considera necessário criar incentivos para reconhecer o desempenho dos servidores, harmonizar remunerações entre carreiras e assegurar o cumprimento do teto constitucional. “Temos que criar um incentivo para premiar o bom funcionário público”, afirma. Para ele, a modernização administrativa pode contribuir para melhorar a eficiência do Estado e a qualidade dos serviços prestados à população.
Na agenda tributária, o economista defende a revisão de regimes especiais que beneficiam determinados grupos e transferem custos para o restante da sociedade. Também aponta distorções na tributação do trabalho, que pode variar conforme o tipo de vínculo ou contrato, mesmo quando a atividade profissional é semelhante. Outra frente é o fortalecimento das agências reguladoras e a preservação da segurança jurídica dos contratos de concessão.
Na avaliação de Mansueto, investimentos de longo prazo dependem de regras estáveis e de confiança de que os compromissos firmados serão respeitados por governos futuros. “Ninguém vai investir no país olhando nos próximos 20, 30 anos se não tiver confiança de que os contratos serão respeitados”, afirma. O histórico de concessões e privatizações Apesar dos desafios, Mansueto vê avanços importantes nas reformas realizadas pelo Brasil na última década.
Ele cita as concessões de aeroportos, a mudança do marco regulatório do saneamento, a independência do Banco Central (BC), a reforma da Previdência e a privatização da Axia, antiga Eletrobras, como exemplos de medidas que alteraram a estrutura da economia. No saneamento, a abertura para a participação privada permitiu ampliar as possibilidades de investimento em água e esgoto, um setor historicamente marcado por déficits de infraestrutura. Na energia, a privatização da então Eletrobras e a expansão das concessões ajudaram a modificar a organização do setor.
O economista também destaca a reforma da Previdência de 2019, considerada importante para a sustentabilidade das contas públicas no longo prazo. “Quando a gente olha os últimos dez anos, não foram poucas [as reformas]. Tem muito mais a fazer, mas foi um grande avanço”, afirma.
Para Mansueto, a experiência mostra que é possível avançar de maneira gradual, sem a necessidade de concentrar todas as mudanças em um único governo ou período legislativo. O fundamental é manter uma trajetória consistente de aperfeiçoamento institucional. O próximo passo, segundo ele, é combinar responsabilidade fiscal, estabilidade regulatória e investimento em capital humano.
A melhoria da educação e da qualificação profissional ganha importância adicional diante das mudanças demográficas previstas para as próximas décadas, quando a população brasileira deverá começar a diminuir. Com menos trabalhadores disponíveis, a economia precisará produzir mais com cada pessoa ocupada para preservar o ritmo de crescimento. O economista vê, portanto, uma combinação de fatores favoráveis — como energia, agricultura competitiva e produção de petróleo — que pode sustentar um ciclo mais robusto de investimentos.
Mas condiciona esse cenário à capacidade do país de organizar suas contas públicas e continuar avançando nas reformas. “O Brasil tem tudo para dar certo, desde que a gente faça o dever de casa”, conclui. ]]>
Resumo publicado pelo SJX NEWS. O conteúdo integral pertence ao veículo de origem.
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