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    O joio e o trigo
    Revista Oeste·20 de set., 21:00

    O joio e o trigo

    A tentativa de descolar o nome de Lula do escândalo no STF é a tarefa mais árdua que o comitê de campanha do atual presidente enfrentou até agora. Integrantes de alas diferentes da campanha divergem sobre como fazer Lula passar ao largo da bagunça, limitando os respingos que porventura venham a atingi-lo. Nesta semana, em entrevista à Record, o presidente tentou se desvencilhar da briga no galinheiro em que se transformou o STF.

    Como sempre, foi eloquente e despejou frases de impacto, como: “Temos que ter uma reforma profunda no Poder Judiciário” e “Quem for ministro ou estiver no Poder Judiciário não pode querer ficar rico”. Lula também disse ao podcast Desce A Letra: “Eu não era presidente quando Alexandre de Moraes foi indicado para ministro da Suprema Corte”. Se, na TV, a estratégia pode ter funcionado, na vida real o quadro é mais complexo.

    No plenário do Supremo, na terça-feira passada, foi um ministro indicado por Lula que pediu vista e suspendeu a sessão em que se discutia a possibilidade de abertura de investigação contra um integrante da Corte. Abertura do Ano Judiciário, no STF - 2/2/2026 | Foto: Wilton Junior/Estadão Conteúdo Lula agora recebe um pacote que ajudou a abrir em novembro de 2019, quando foi solto depois que o Supremo mudou seu entendimento sobre o início do cumprimento da pena após condenação em segunda instância, recolocando-o como principal adversário do então presidente Jair Bolsonaro. Em março de 2021, o ministro Edson Fachin anulou todas as condenações impostas a Lula pela Justiça Federal de Curitiba, ao concluir que aquela vara não tinha competência para julgar os processos.

    E aqui se esconde o ovo da serpente: é nesse momento que o STF entra na política brasileira para não mais sair. Pelo contrário, adquiriu gosto pelas “possibilidades” que poderiam aparecer. Gostou tanto do doce que não consegue mais sair do melaço.

    E o mel continuou a escorrer pelas mãos dos ministros durante o atual mandato presidencial. Com um país dividido ao meio e um Congresso mais conservador, bastava o governo perder uma votação para recorrer ao STF e tentar reverter a derrota. Foram diversos episódios: reajuste das alíquotas do IOF, sob relatoria de Alexandre de Moraes; marco temporal das terras indígenas; desoneração da folha de pagamento, em decisão de Cristiano Zanin; entre outros.

    E o Supremo, em vez de devolver a bola, matou-a no peito e dominou tudo. Há pouco mais de 30 dias, Moraes promoveu um jantar em sua residência para tentar reatar o diálogo entre o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e Lula, agindo, na prática, como um articulador político. Zanin também estava presente e participou da aproximação.

    Na visão de boa parte dos brasileiros, senão da maioria, o Brasil teve um tribunal que soltou determinado político, atuou de maneira considerada favorável a ele durante as eleições — com uma ministra afirmando que, em “situações excepcionalíssimas”, a censura poderia ser aplicada —, ajudou o mesmo político a governar e agora acha “surpreendente” quando parte da população demonstra ojeriza e repulsa pela Corte. Infelizmente, para Lula, seus últimos quatro anos à frente do país são indissociáveis do STF, que, na visão de seus críticos, ajudou-o a voltar ao jogo eleitoral e, certamente, tomou decisões que favoreceram seu governo. O atual presidente do STF foi quem anulou suas condenações.

    Foi seu ex-ministro Flávio Dino quem pediu vista e interrompeu a sessão. Foi seu ex-advogado Cristiano Zanin quem votou pela não continuidade do julgamento nos moldes inicialmente propostos. Todos eles sob a influência do decano Gilmar Mendes, cuja atuação naquele plenário, para seus críticos, há muito ultrapassou os limites esperados de equilíbrio e compostura.

    Como se separa o joio do trigo, se tudo é joio? Leia também: "Chicaneiros de toga" , reportagem publicada na Edição 340 da Revista Oeste O post O joio e o trigo apareceu primeiro em Revista Oeste . ]]>

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