O que a alta dos juros nos EUA significa para o dólar e as bolsas no Brasil e no mundo
Quando a política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) muda de direção , os mercados globais costumam tremer. E a perspectiva de uma virada se materializou nesta tarde de quarta-feira (16) com a primeira alta na taxa de juros desde 2023. Um subida de juros nos EUA costuma trazer três reações imediatas dos mercados: o fortalecimento do dólar, o avanço dos juros de curto prazo e uma saída de recursos das bolsas, no mundo e no Brasil.
De fato, a reação inicial seguiu o “manual”: Ibovespa e índices de ações em Nova York passaram a recuar ou aprofundaram perdas depois do anúncio da decisão do Fed liderado por Kevin Warsh , enquanto o dólar subiu. Os juros futuros subiram nos EUA, embora tenham caído no Brasil, na esteira da expectativa predominante de queda pelo Copom. Leia também Investimentos Na contramão da lógica, ouro sobe com juro americano em alta – veja como investir Mas ainda é cedo para saber como esse movimento dos preços dos ativos vai se consolidar.
Para o banco suíço UBS, a reação nos próximos dias e semanas vai depender de como os investidores vão ligar os pontos em relação ao cenário de fundo na maior economia do mundo. Na prática, isso significa entender se a visão que vai prevalecer no mercado será a de copo meio cheio ou do meio vazio. Em um dos cenários, investidores e os chamados agentes de mercado vão se concentrar no pano de fundo associado a crescimento acima da média da economia americana sob impulso da inteligência artificial, com tendência de um avanço sustentado no médio e longo prazos.
Nessa situação, mesmo que a inflação persista bem acima da meta do Fed, de 2% ao ano, os investidores podem, paradoxalmente, celebrar a subida de juros: isso porque, mesmo com o freio da política monetária para controlar a subida de preços, as perspectivas seriam de mais crescimento, mais investimentos, mais empregos e mais lucros corporativos. Leia também Investimentos Por que os investidores perderam a paciência com os gastos bilionários das big techs em IA Por outro lado, se a mensagem do Fed for interpretada como a de perspectiva de perda de fôlego da economia diante de juros mais altos, isso seria recebido com preocupação pelos mercados. Isso vale, especialmente, se a sinalização também for de taxas altas mais tempo ou de um ciclo mais duro de aperto monetário.
Nesse caso, a combinação clássica de dólar mais forte, juros mais altos e uma maior cautela com riscos tende a prevalecer. Os dados mais recentes da economia têm sustentado o primeiro cenário de copo meio cheio que o UBS batizou de “decolagem com a IA”. Os números do relatório de empregos nos EUA de agosto, divulgado no início do mês, mostraram uma geração de vagas bem acima das expectativas e, ao mesmo tempo, uma taxa de desemprego historicamente baixa.
Os EUA criaram 162 mil vagas no mês passado ante uma expectativa do mercado de 55 mil postos. A taxa de desemprego permaneceu em 4,1%. O que muda para as ações?
Uma alta de juros acompanhada de crescimento sustentado, com investimento em alta em inteligência artificial, emprego robusto e lucros em expansão, tende a manter um ambiente favorável para ativos de risco, mesmo que a volatilidade de curto prazo aumente. O Goldman Sachs também partilha da visão de que a alta de juros pelo BC dos EUA terá um impacto relativo sobre a bolsa americana. “As ações tipicamente recuam quando o Fed soba as taxas, mas esperamos que o mercado acionário continue em alta”, afirmaram os analista dos banco.
O motivo, segundo o Goldman, é que o crescimento dos lucros corporativos vai mais que compensar os ventos contrários dos juros mais elevados. Já os analistas do UBS destacam para investimento setores como inteligência artificial, energia e recursos naturais, além de papéis de empresas ligadas a longevidade. São negócios que se beneficiam diretamente de mais investimento e ganhos estruturais de produtividade.
Leia também Investimentos Cobertor curto: 7 ações do Ibovespa mais expostas ao impacto dos juros altos em seus resultados Na lista das ações americanas que mais se valorizaram no ano no setor de tecnologia, as companhias que fornecem equipamentos, peças e outros elementos de infraestrutura para a IA, ou seja, que recebem dinheiro desembolsado pelas big techs em infraestrutura de IA, ocupam o topo. Western Digital e Seagate, por exemplo, fabricantes de dispositivos de armazenamento, apresentam ganhos de 231% e 184%. A Dell, que fornece servidores para data centers, tem avanço de 337% em 2026 até setembro.
Micron, Intel e Marvell, que fabricam chips e memórias, também entram na lista de maiores avanços do ano, com valorização dos papéis de 260%, 184% e 180%, respectivamente. E essas altas têm fôlego para continuar? A resposta objetiva é que depende da IA.
Isso porque, no momento, um dos principais indicadores para saber se uma ação está cara ou barata, o múltiplo de preço em relação ao lucro (P/L), não se mostra inflado mesmo com os ganhos recentes. O P/L das empresas de tecnologia está atualmente na faixa de 33 vezes , dentro da média para o setor nos últimos 5 anos. Ou seja, as ações subiram porque elas estão faturando proporcionalmente mais.
Então a questão que fica é: os lucros e as receitas vão continuar avançando nos próximos trimestres? Tudo indica que sim. Pelo menos para as empresas especializadas em equipamentos para IA.
Leia também Investimentos Mercado eleva apostas de alta de juros nos EUA após dados de emprego. E isso afeta o rendimento no Brasil A onda de investimentos das big techs em infraestrutura de IA só está começando. Em 2026, a previsão é que apenas Alphabet, Microsoft, Amazon e Meta vão investir cerca de US$ 724 bilhões.
Como investir em ações de fora Todos os papéis americanos citados têm BDRs (Brazilian Depositary Receipts) negociados na B3. São recibos ou certificados que representam no mercado local ações listadas lá fora. Significa que os investidores brasileiros podem aplicar aqui mesmo e em reais nessas companhias por meio dos BDRs.
Há ainda ETFs, ou seja, fundos que seguem índices, como aqueles atrelados a referenciais de tecnologia no exterior. Esses veículos têm suas cotas negociadas na bolsa brasileira como se fossem ações. Por isso, representam uma maneira acessível e simples para quem quiser aumentar a diversificação em papéis ligados ao setor.
Leia também Investimentos Bitcoin volta aos US$ 81 mil com ajuda do Fed e dos ETFs O ETF NASD11, da XP Asset, busca replicar o índice acionário americano Nasdaq-100. Já o QQQI11, da Buena Vista, também segue o Nasdaq-100, mas busca trazer uma distribuição mensal de renda com uso de derivativos. Também da Buena Vista, o ETF QQQQ11 está indexado ao Nasdaq-100 High Beta Index, que segue a variação das ações de maior correlação com o mercado.
O USTK11, da Investo, busca replicar o desempenho do índice MSCI US IMI Information Technology 25/50. Há ainda fundos de índice ligados a segmentos específicos, como o CHIP11, da Investo, ligado ao MVIS US Listed Semiconductor 25 Index, com uma carteira focada em companhias de semicondutores. O TECK11, da Itaú Asset, que tem como referencial o NYSE FANG+ Index, segue as big techs, mas com rebalanceamento trimestral baseado em liquidez.
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Resumo publicado pelo SJX NEWS. O conteúdo integral pertence ao veículo de origem.
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