SJX NEWS

    forbes.com.br

    Forbes Brasil

    SJXNEWS
    Forbes Brasil·29 de set., 18:00

    O Que os Cachorros nos Ensinam sobre Rituais Diários

    Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo. Tenho um ritual diário do qual não abro mão: passear com meus cachorros. Eu diria até que é hoje “o” ritual mais importante do meu dia a dia.

    É um momento que espero – e os cachorros também – e uma espécie de lugar reservado do dia. Ele ocupa um espaço tão importante no meu cotidiano que chego a me irritar quando fico preso no trânsito e demoro mais tempo do que gostaria para chegar em casa. Quando finalmente saímos, eles voltam felizes e cansados, e eu também.

    Penso que os rituais não dizem respeito apenas àquilo que fazemos, mas ao significado que aquela repetição ganhou. Tomar café diariamente pode ser uma rotina. Agora, tomar na mesma xícara, saboreando a bebida enquanto se lê as notícias antes de sair para o trabalho, é bem diferente.

    O gesto de tomar o café é o mesmo. O que mudou no segundo caso é que ele passou a marcar o começo do dia. A ciência vem investigando o papel dos rituais em situações de ansiedade, incerteza e mudança.

    Em uma série de experimentos feitos por pesquisadores de Harvard, pequenos rituais realizados antes de tarefas estressantes reduziram a ansiedade e, em certas circunstâncias, melhoraram o desempenho. O interessante é que não parecia importar apenas repetir uma sequência de gestos. A própria ideia de que aquilo constituía um ritual também fazia diferença.

    Isso ajuda a entender por que apelamos para rituais justamente quando a vida parece desorganizada. Eles podem ajudar a estruturar não apenas o que está fora de nós, mas o que está do lado de dentro. Nos anos em que competi em provas de triatlo e Ironman, os treinos eram a rotina que conhecia de perto.

    Eu tinha um objetivo a cumprir para isso, e deveria me dedicar a treinar de tal e tal maneira. Dentro dessa rotina, havia um ritual (meu, é bom dizer) que consistia em calçar antes o pé esquerdo e depois o direito, tanto para pôr o tênis quanto para calçar a sapatilha de pedalar. Aquilo aplacava a ansiedade e organizava a meu foco, mas era mais do que isso.

    Era o gesto que marcava a passagem do aquecimento para o modo “competir”. Há milhares de anos, os rituais nos acompanham quando passamos por um período de transição ou nos momentos em que a vida parece fora de ordem. Pode ser um concurso ou uma prova importante, a morte ou nascimento de uma pessoa querida e até no casamento.

    Mas pode ser também um instante muito particular, como é o caso do meu passeio com meus cachorros. Porém vale um cuidado. Esse mesmo gesto, quando levado ao extremo, pode aprisionar.

    Quando não podemos mais abrir mão dele sem sofrer, pode ser sinal de que algo vai mal. Fora esses casos, o que os rituais oferecem é justamente o contrário. Nesta era em que vivemos, em que tudo parece disputar a nossa atenção, dá conforto repetir certas coisas.

    E essa é uma das funções mais simples dos rituais: eles ajudam a criar alguma ordem possível quando não conseguimos organizar tudo o que está acontecendo. Foi o que percebi ontem, quando tirei a roupa de trabalho, vesti um abrigo, calcei os tênis e peguei as coleiras. Os meus cães, já sabendo, me aguardavam felizes da vida, e eu também a eles.

    *Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental. Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores .

    O post O Que os Cachorros nos Ensinam sobre Rituais Diários apareceu primeiro em Forbes Brasil . ]]>

    Resumo publicado pelo SJX NEWS. O conteúdo integral pertence ao veículo de origem.

    Leia a matéria completa em Forbes Brasil →