O Que R$ 100 Revelam sobre o Crédito no Brasil
Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo. Em pouco mais de um ano, o Crédito do Trabalhador alcançou 9,5 milhões de pessoas, acumulou 21,6 milhões de contratos ativos e movimentou R$ 120 bilhões, segundo a Dataprev. A nova infraestrutura ampliou o acesso ao consignado privado para empregados de empresas de todos os tamanhos e mostrou a força de uma modalidade capaz de combinar escala, competição e desconto em folha.
Em junho de 2026, um levantamento da Serasa Experian mostrou outra face dessa expansão: o valor médio das operações caiu 73%, de R$ 8,6 mil para R$ 2,3 mil, enquanto o número de novos contratos mais que dobrou. O mercado cresceu chegando a necessidades cada vez menores. Por trás dos bilhões, porém, há números muito menores que ajudam a explicar o desafio que permanece.
Na operação da meutudo, tornou-se recorrente encontrar clientes dispostos a refinanciar uma dívida para receber apenas R$ 100 ou R$ 200 de volta. O valor parece irrelevante para uma instituição financeira. Para quem o solicita, pode ser a diferença entre pagar uma conta, fazer uma compra básica ou atravessar os últimos dias do mês.
Um produto inclusivo, uma distribuição desalinhada A MeuTudo nasceu em 2017, justamente em torno dessa tensão. O consignado já era uma das linhas mais inclusivas e eficientes do país: ao descontar a parcela diretamente da renda, reduzia a volatilidade da cobrança e permitia oferecer condições melhores do que modalidades sem garantia. A experiência de contratação, no entanto, ainda dependia fortemente de agências e de uma extensa rede de intermediários financeiros, popularmente conhecidos como “pastinhas”.
A intermediação adicionava custos de estrutura, logística e comissionamento. Mais importante, criava um conflito de interesses. Quem distribuía o empréstimo era remunerado pelo volume vendido e podia ganhar mais com operações maiores e com comissões melhores pagas pelo banco.
O cliente precisava exatamente do contrário: tomar somente o necessário, pelo menor preço possível e com plena compreensão do impacto das parcelas sobre sua renda futura. “O consignado sempre foi um produto eficiente. O problema nunca esteve no desconto em folha — esteve numa distribuição em que quem vendia o crédito não tinha o menor incentivo para vender menos, ou vender mais barato”, afirma Márcio Feitoza, fundador da MeuTudo.
A proposta era permitir que o cliente consultasse, comparasse e contratasse diretamente, com mais transparência, velocidade e taxas menores. Mas a tecnologia era a parte mais fácil. O obstáculo real era confiança.
” Os bancos com quem os fundadores conversavam diziam que seria impossível romper aquela distribuição agressiva e próxima do consumidor. A aposta foi em transparência, preço e relacionamento de longo prazo — por isso, a decisão de criar um aplicativo quando o caminho mais simples para uma fintech seria operar apenas pela web pareceu, na época, um erro de estratégia. Hoje é a razão pela qual a relação com o cliente sobreviveu à entrada de dezenas de concorrentes.
A eficiência de cobrar não basta A escolha do aplicativo antecipava um aprendizado importante: crédito consignado não é uma transação isolada. É uma relação que pode durar anos, atravessar mudanças de renda e gerar refinanciamentos. A experiência não termina quando o dinheiro cai na conta.
A recorrência revelou uma dimensão maior do problema. Parte dos clientes voltava para recompor a renda disponível já comprometida por operações anteriores. Sem reserva financeira, qualquer imprevisto poderia gerar a necessidade de novo crédito — às vezes por apenas R$ 100 ou R$ 200.
A consignação continua sendo um mecanismo importante, sobretudo em um país com pouca previsibilidade financeira para milhões de famílias. Ela reduz perdas, traz segurança ao fluxo de pagamento e pode viabilizar taxas menores e prazos mais adequados. Mas resolve apenas uma das pontas: como o crédito será pago.
Não responde por que ele está sendo contratado, nem se produzirá um resultado positivo para o cliente. “Existe uma lógica de compensar as perdas de uma carteira com taxas maiores. Mas o preço utilizado para protegê-la não pode aumentar o risco que deveria compensar”, argumenta Márcio Juros precisam refletir risco, custo de capital e operação.
Mas tratá-los apenas como compensação pode produzir um círculo vicioso: preços maiores tornam as parcelas mais difíceis e ampliam o risco que buscavam antecipar. Unir previsibilidade de cobrança ao entendimento da necessidade real é o que permite construir um crédito mais eficiente em preço e prazo. A fotografia não conta a história inteira Outra crença colocada em xeque é a de que o perfil socioeconômico define o comportamento de crédito.
Renda, escolaridade, profissão e porte do empregador podem contextualizar a capacidade de pagamento, mas não deveriam funcionar como uma condenação financeira. Uma pessoa não deveria receber condições piores apenas porque ganha menos, estudou menos ou trabalha em uma empresa pequena. “O mercado ainda usa uma fotografia socioeconômica para prever o futuro financeiro das pessoas.
O comportamento com o crédito deveria ser a principal fonte de aprendizado para ajustar a oferta às necessidades de cada cliente”, comenta Feitoza. Essa mudança exige superar políticas construídas uma vez e aplicadas indefinidamente. Sistemas baseados em dados podem aprender com cada concessão, pagamento, atraso, mudança de vínculo e refinanciamento.
O objetivo deixa de ser apenas prever quem pagará e passa a incluir quanto oferecer, por quanto tempo, a que preço e em qual momento — inclusive quando não oferecer um novo empréstimo. O Brasil não é uma anomalia. É um caso-limite Nenhum desses problemas é exclusivo do Brasil.
Mas aqui eles aparecem em versão mais extrema. Segundo o IBGE, a informalidade atingiu 37,4% da população ocupada no segundo trimestre de 2026 — e mesmo entre os trabalhadores formais, a renda mensal costuma oscilar com hora extra, comissão e 13º diluído. É um mercado em que boa parte da população nunca teve, e talvez nunca vá ter, um extrato de renda estável para apresentar a um banco.
Nele, o histórico de crédito tradicional, sozinho, sempre vai contar uma história incompleta. O consignado nasceu como resposta a essa instabilidade: ao descontar a parcela na fonte, reduz a dependência da renda declarada e da vontade de pagar. Mas operar num mercado assim ensina algo que não se aprende em sistemas de crédito mais maduros: reduzir o risco de cobrança e reduzir o risco sobre a vida financeira da pessoa são coisas diferentes.
Dois clientes com a mesma parcela, a mesma taxa e o mesmo prazo podem estar resolvendo problemas completamente diferentes — um está organizando a vida, o outro está adiando uma crise. O Brasil obriga a olhar para essa diferença porque, em escala, ela decide se um produto inclusivo continua inclusivo ou apenas parece inclusivo no agregado. Do acesso ao julgamento A meutudo usa o comportamento observado na própria base — concessão, pagamento, atraso, mudança de vínculo, refinanciamento — para reduzir o peso de classificações estáticas nas decisões de crédito.
A empresa reconhece que ainda tem visibilidade limitada sobre o destino de cada real, porque não opera toda a vida financeira do cliente dentro de uma única solução de consumer banking. Mesmo assim, a recorrência de pedidos por valores mínimos revela algo que vale para o setor inteiro, não só para quem concede: para uma parcela relevante da população, o crédito já funciona como extensão da renda para o dia a dia — e o sistema financeiro ainda mede sucesso como se essa parcela não existisse. Se em dez anos o setor tiver de fato avançado, a métrica que vai comprovar isso não será o volume concedido nem a inadimplência evitada.
Será a proporção de clientes cuja próxima operação de crédito é menor, mais barata ou simplesmente inexistente — porque a anterior resolveu o problema para o qual foi contratada. A aposta é que o comportamento deixe de ser só insumo de modelo de risco e passe a ser também insumo de política de produto: quanto oferecer, por quanto tempo, e até a decisão de não conceder um novo empréstimo. “Crédito eficiente não é somente aquele que conseguimos vender e cobrar.
É aquele em que os interesses da instituição e do cliente permanecem alinhados até o final da relação”, finaliza o empreendedor. O sistema financeiro brasileiro já demonstrou capacidade de criar infraestrutura, distribuir produtos e cobrar em escala. A próxima fronteira não é de acesso.
É de julgamento — saber quando um crédito organiza a vida de alguém e quando só está adiando o problema. Quando uma pessoa refinancia uma dívida por R$ 100, o problema não é o tamanho do valor. É tudo o que o sistema ainda não entendeu antes de oferecê-lo.
A Endeavor é uma rede global presente em mais de 40 países e formada pelos empreendedores e empreendedoras que mais crescem no mundo. No Brasil desde 2000, acelera negócios com potencial escalável por meio do programa Scale-Up e promove conexões entre os maiores líderes do país e empreendedores em início de jornada. Também investe em startups em fases Seed e Series A, com o fundo Scale-Up Ventures.
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