O Tamanho de São Paulo Não Resolve Tudo: os Desafios da Maior Economia do País
Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo. São Paulo produz quase um terço de toda a riqueza brasileira , mas o tamanho da economia não tira da frente os desafios que estarão na mesa da próxima gestão estadual a partir de 2027. O espaço fiscal, a desigualdade de renda, a produtividade e a capacidade de continuar atraindo investimentos em um ambiente tributário diferente aparecem entre os principais pontos de atenção levantados por economistas ouvidos pela Forbes.
Nos dados regionais mais recentes do IBGE, referentes a 2023, São Paulo respondeu por 31,5% do PIB brasileiro, mantendo com folga a posição de maior economia estadual do país. O retrato, porém, fica mais heterogêneo quando se olha além da produção de riqueza. É o que mostra o IMDS Eleições 2026: Indicadores Estaduais , plataforma lançada pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) .
O instituto foi criado em 2020 pelos economistas Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, e Paulo Tafner . Sem ligação com partidos políticos e mantido por recursos privados, produz estudos e ferramentas para ajudar a desenhar e acompanhar políticas públicas voltadas à mobilidade social no Brasil. O painel reúne 228 indicadores das 27 unidades da Federação, distribuídos em 12 áreas, entre elas situação fiscal, mercado de trabalho, educação, pobreza, ambiente de negócios e segurança.
A ferramenta não dá uma nota geral aos estados. Em cada indicador, as unidades da Federação são separadas em três grupos: os nove melhores resultados aparecem em verde, os nove intermediários em amarelo e os nove menos favoráveis em vermelho. Panorama do estado de São Paulo No caso paulista, o painel revela contrastes.
São Paulo acumula resultados relativamente favoráveis em áreas como educação, segurança e parte dos indicadores de mercado de trabalho. “Tem desafios, mas tem bons resultados”, afirmou Fernando Veloso, diretor de Pesquisa do IMDS , em entrevista à Forbes . Já o quadro fiscal segue na direção oposta: dos sete indicadores apresentados no panorama, seis colocam São Paulo entre os nove resultados menos favoráveis do país e apenas um aparece no grupo intermediário .
Ainda assim, Veloso chama atenção para uma particularidade paulista. ” Segundo ele, em outros estados, problemas fiscais acabam afetando diretamente a provisão desses serviços. O peso da dívida A situação fiscal é um dos pontos que mais chamam atenção.
São Paulo tem uma base de arrecadação robusta, mas também carrega um volume elevado de compromissos que limita sua margem de manobra. Ao fim de 2025, a dívida consolidada líquida do Estado somava R$ 328,7 bilhões , o equivalente a 123,55% da receita corrente líquida ajustada. O percentual estava abaixo do limite de 200% estabelecido para os estados.
Isso significa que São Paulo tinha aproximadamente R$ 1,24 em dívida líquida para cada R$ 1 de receita corrente líquida ajustada. Para Cláudio Gonçalves dos Santos , economista da Fipecafi, fundação criada por professores da FEA-USP e voltada às áreas de contabilidade e finanças, o tamanho da dívida exige atenção, mas precisa ser analisado à luz da capacidade econômica paulista. “A gente tem uma dívida grande, em termos absolutos, mas ela é administrável por conta da dinâmica da economia de São Paulo”, afirmou à Forbes .
O desafio, na avaliação de Santos, é abrir mais espaço para investimento. Isso passa pela administração do custo e do perfil da dívida e pelo controle das despesas obrigatórias. “O desafio do próximo governo é diminuir o custo da dívida”, diz.
O economista também defende buscar o alongamento dela. “Para que, com isso, o Estado tenha mais recursos para investimento e para a melhoria da produtividade”, diz. Os próprios indicadores usados pelo IMDS ajudam a entender por que a questão fiscal vai além do estoque da dívida.
O painel considera gastos com pessoal, despesas previdenciárias, dívida em relação à receita corrente líquida, restos a pagar, renúncias de ICMS e a Capag. Em 2024, por exemplo, as despesas com pessoal equivaliam a 62,21% das despesas primárias, enquanto a despesa previdenciária correspondia a 42,97% dos gastos com pessoal e a 29,90% da receita corrente líquida. Quanto maior a parcela do Orçamento já comprometida com despesas recorrentes, menor a margem para direcionar recursos a outras áreas.
São Paulo recebeu nota B na Capag de 2024 , indicador do Tesouro Nacional que considera endividamento, poupança corrente e liquidez e é utilizado na análise da capacidade de pagamento dos estados. Crescer e espalhar a renda O segundo ponto que aparece com força no painel do IMDS é a distribuição de renda e a pobreza. O tamanho da economia paulista não elimina as diferenças entre grupos da população e regiões do estado.
Veloso coloca o tema entre os pontos de atenção. “Tem bastante desigualdade ainda”, afirmou. ” O painel mede essa dimensão por diferentes ângulos, como população em situação de pobreza e extrema pobreza, hiato de renda e concentração da renda.
Os dados são construídos principalmente a partir da PNAD Contínua e, para os indicadores de pobreza, o IMDS utiliza linhas regionalizadas atualizadas pela inflação. O Índice de Gini , que mede a concentração de renda e vai de 0, em uma situação de igualdade, a 1, de desigualdade máxima, recuou nos últimos anos no estado. Depois de atingir o maior nível da série em 2018, próximo de 0,54, o indicador caiu para cerca de 0,49 em 2024, o menor patamar desde 2012, e teve apenas uma leve alta em 2025.
Ou seja, São Paulo reduziu a desigualdade em relação aos níveis observados antes da pandemia, embora ela continue aparecendo como um dos desafios do estado. A questão se conecta diretamente ao mercado de trabalho. São Paulo apresenta indicadores comparativamente melhores em formalização e dinamismo econômico, e Veloso destaca o desempenho do interior, onde a atividade é forte.
A formalização, diz, também depende desse dinamismo. ” Essa combinação coloca um desafio diferente para a próxima gestão: não apenas ampliar a atividade econômica, mas fazer com que os ganhos alcancem regiões e grupos que ainda aparecem em situação menos favorável nos indicadores sociais. Uma nova disputa por investimentos Outro fator que muda o ambiente em que São Paulo disputará novos investimentos nos próximos anos é a reforma tributária do consumo.
A gestão que começa em 2027 assumirá justamente quando a implementação do novo sistema avança. PIS e Cofins deixam de existir e a CBS passa a ser cobrada naquele ano. A substituição gradual do ICMS e do ISS pelo IBS ocorre entre 2029 e 2032.
Em 2033, o novo modelo entra integralmente em vigor. Com a transição, perde espaço a competição entre estados baseada em benefícios de ICMS. Para Santos, isso tende a colocar outros fatores no centro das decisões das empresas sobre onde investir.
”, afirma. Infraestrutura, mão de obra qualificada, segurança e conectividade passam, nessa leitura, a pesar mais. São áreas em que São Paulo parte de uma posição relativamente favorável.
O estado concentra universidades, centros de pesquisa, empresas de tecnologia e uma ampla rede de infraestrutura logística. Para Santos, porém, o desafio é transformar esses ativos em mais eficiência econômica. “Hoje, o Brasil é muito carente em produtividade.
” O próprio painel do IMDS reflete outro lado do retrato paulista. São Paulo aparece entre os nove melhores resultados em vários indicadores de educação e segurança. Na taxa de homicídios, por exemplo, o estado registrou 6,4 mortes por 100 mil habitantes em 2023 , o menor resultado entre as unidades da Federação naquele ano.
Para Santos, produtividade também passa pelo uso de tecnologia na administração pública e nas empresas, além de concessões e parcerias com o setor privado. Ao falar especificamente de inteligência artificial, o economista defende que o poder público busque formas de incorporá-la para obter ganhos de eficiência. O desafio de pensar além de quatro anos Há ainda uma questão que atravessa os demais problemas: planejamento.
Infraestrutura, qualificação profissional, produtividade e redução da desigualdade exigem políticas cujos efeitos podem demorar mais do que um mandato. Santos aponta a continuidade dos projetos estruturantes como uma das dificuldades. “O desafio lançado para o próximo governo é estabelecer uma agenda de planejamento para, de fato, fazer obras de longo prazo, obras de infraestrutura”, afirma.
“Uma agenda que perpasse governos”, acrescenta. O IMDS segue uma lógica semelhante ao oferecer séries históricas, e não apenas uma fotografia do último dado disponível. Para o instituto, acompanhar a trajetória ajuda a diferenciar um problema persistente de uma deterioração recente e evita conclusões baseadas em um único indicador.
No caso de São Paulo, essa perspectiva produz um retrato menos simples do que o tamanho de seu PIB poderia sugerir. A maior economia do país chega ao próximo ciclo com ativos importantes em infraestrutura, capital humano e segurança, mas também com dívida elevada, desigualdades e a necessidade de elevar a produtividade. O desafio econômico estará justamente em administrar essas duas faces ao mesmo tempo.
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