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    O último capitalista clássico
    Revista Oeste·31 de out., 10:00

    O último capitalista clássico

    Em 1940, Warren Buffett tinha 10 anos quando o pai lhe ofereceu uma viagem pela Costa Leste dos Estados Unidos. O menino escolheu o roteiro: uma loja de selos e moedas, uma fábrica de trens de brinquedo e a Bolsa de Valores de Nova York. Howard Buffett, seu pai, trabalhava como corretor em Omaha, e Warren passava horas no escritório acompanhando as cotações que chegavam pelo telégrafo.

    Durante um almoço na Bolsa, um funcionário apareceu carregando uma bandeja com folhas de tabaco. Um dos magnatas escolheu as que queria e recebeu um charuto preparado ali mesmo. A cena marcou Buffett.

    Décadas depois, ele ainda se lembrava de ter pensado quanto dinheiro aquele homem precisava ganhar para ter alguém ali só para enrolar seus charutos. Pouco depois da viagem, encontrou numa biblioteca Mil maneiras de ganhar mil dólares . Uma das propostas do livro era comprar uma balança, cobrar pelo uso e investir os ganhos em novas balanças.

    Buffett imaginou vinte delas espalhadas pela cidade. O que o fascinava era a progressão: os lucros compravam novas máquinas, que produziam novos lucros. Começou a calcular o que aconteceria com US$ 1 mil crescendo 10% ao ano.

    Em 25 anos, seriam mais de US$ 10 mil. + Leia mais notícias do Mundo em Oeste Buffett passou os anos seguintes tentando transformar aquelas contas em dinheiro de verdade. Entregava jornais e poupava boa parte do que ganhava.

    Aos 19 anos, já havia começado a investir quando leu O Investidor Inteligente , de Benjamin Graham. Em 1950, a empolgação com a obra levou Buffett à Universidade Columbia, em Nova York, onde Graham lecionava. Àquela altura, já havia acumulado cerca de US$ 10 mil.

    Seu método começava pelo balanço das empresas. O docente somava o dinheiro em caixa, os estoques e os valores que a companhia ainda tinha a receber. Depois, descontava as dívidas.

    O resultado era comparado com o preço das ações na Bolsa: se aquela conta correspondesse a US$ 10 por ação e o mercado cobrasse US$ 6, Graham enxergava uma pechincha. Buffett logo se destacou nas aulas. Às vezes, levantava a mão para responder antes mesmo de Graham terminar a pergunta.

    Em 1951, terminou o curso com a nota máxima, a única que o professor concedeu em 22 anos de Columbia. Queria continuar aprendendo com ele e se ofereceu para trabalhar de graça na Graham-Newman, sua firma de investimentos. Graham recusou.

    Na época, judeus ainda encontravam portas fechadas em Wall Street, e ele preferia reservar as vagas da empresa para estes profissionais. Em 1954, o convite finalmente veio: Graham o chamou para Nova York. Na Graham-Newman, o método que aprendera em Columbia virou seu trabalho diário.

    Buffett era um dos poucos funcionários da firma e passava horas percorrendo o guia de ações da Standard & Poor’s em busca de empresas baratas. Quando encontrava uma, levava os números a Graham, que decidia se comprava. Warren Buffett, investidor e presidente da Berkshire Hathaway | Foto: Omaha World-Herald/Reprodução Os dois trabalharam juntos até 1956, quando Graham decidiu se aposentar.

    Naquele momento, Buffett já era visto pelo antigo professor como seu principal discípulo: perguntado por um investidor sobre quem poderia sucedê-lo, Graham indicou o nome do ex-aluno. Buffett, porém, escolheu voltar a Omaha. Aqueles US$ 10 mil que possuía ao entrar na universidade já haviam se tornado cerca de US$ 140 mil.

    Aos 25 anos, Buffett criou uma sociedade para investir US$ 105 mil de parentes e amigos, seguindo o modelo de Graham. Do próprio bolso, colocou apenas US$ 100. Em troca de administrar o dinheiro, receberia uma parcela dos lucros e aumentaria assim sua participação na sociedade.

    Em 1962, uma dessas pechinchas levou Buffett a uma velha fabricante de tecidos da Nova Inglaterra. O nome era Berkshire Hathaway. A empresa vinha encolhendo havia anos.

    À medida que fechava fábricas, vendia os equipamentos e devolvia parte do dinheiro aos acionistas. As ações custavam US$ 7,50, embora a companhia tivesse cerca de US$ 10 por ação em capital de giro. Buffett percebeu que a Berkshire costumava recomprar ações quando fechava fábricas e apostou que isso voltaria a acontecer.

    Em 1964, o presidente da Berkshire perguntou por quanto Buffett venderia sua participação. Chegaram verbalmente a US$ 11,50 por ação. A proposta escrita apareceu depois: US$ 11,375.

    Buffett se irritou com os 12,5 centavos de diferença e desistiu de vender. Em seguida, fez exatamente o contrário: comprou mais ações e, em 1965, assumiu o controle da Berkshire. Anos depois, chamaria aquilo de uma decisão “monumentalmente estúpida”.

    Um investimento concebido para terminar com a venda das ações havia deixado Buffett responsável por uma tecelagem em decadência. A situação logo entrou nas conversas com o advogado Charlie Munger, investidor que conhecera anos antes. Munger via com desconfiança as pechinchas que atraíam o amigo e preferia empresas capazes de continuar produzindo bons retornos durante muitos anos.

    Ele foi direto: “Esqueça a ideia de comprar outra empresa como a Berkshire”, aconselhou. ” A oportunidade de seguir esse conselho surgiu em 1972, com a See’s Candies. A fabricante de chocolates ganhava cerca de US$ 4 milhões por ano antes dos impostos, embora tivesse apenas US$ 8 milhões investidos em lojas, fábricas e outros bens necessários à operação.

    Seus donos pediam US$ 30 milhões. Buffett relutou e estabeleceu um teto de US$ 25 milhões. A venda saiu nesse valor.

    A força da marca permitia à See’s aumentar os preços sem afastar os clientes. E pouco do dinheiro que ganhava precisava ser reinvestido no próprio negócio. Até 2014, a empresa havia acumulado cerca de US$ 2 bilhões em lucros antes dos impostos, enquanto apenas US$ 40 milhões haviam sido necessários para financiar seu crescimento.

    Grande parte do dinheiro que sobrava seguia para a Berkshire e podia ser investida em outros negócios. Warren Buffett, que começou a trabalhar ainda adolescente entregando jornais, carrega exemplares durante um evento | Foto: Gates Notes/Reprodução A esse dinheiro se juntavam os recursos das seguradoras do grupo, que a Berkshire começara a formar em 1967. Os clientes pagavam pelo seguro antes que a companhia precisasse pagar as indenizações.

    Nesse intervalo, Buffett podia investir esses recursos, cujo volume passou de cerca de US$ 20 milhões naquele ano para US$ 171 bilhões em 2024. Embora o dinheiro entrasse e saísse continuamente, o montante permanecia estável, o que permitia a Buffett investi-lo pensando no longo prazo. Buffett decidia o destino desse capital, enquanto os gerentes cuidavam do dia a dia de cada empresa.

    Em 1979, resumiu essa divisão: as decisões financeiras da Berkshire eram concentradas “bem no topo”, enquanto a operação permanecia amplamente descentralizada. A equipe corporativa era pequena o bastante para caber num time de basquete. Quando uma dessas empresas produzia mais dinheiro do que precisava para continuar operando, o excedente era investido em outro negócio.

    A própria Berkshire quase nunca distribuía esse dinheiro aos acionistas: entre 1965 e 2024, pagou dividendos em dinheiro uma única vez. Em 2023, aos 92 anos, Buffett fez um balanço de 58 anos decidindo onde investir capital. Escreveu que a maior parte de suas escolhas havia sido apenas razoável e que algumas decisões ruins tinham sido salvas por “grandes doses de sorte”.

    Cerca de uma dúzia havia sido realmente boa — uma a cada cinco anos. Segundo ele, foram esses poucos acertos que produziram os resultados da Berkshire. Quando Buffett assumiu o controle, em 1965, a Berkshire tinha patrimônio líquido de US$ 22 milhões.

    Todo esse patrimônio estava empregado na operação têxtil; a empresa não tinha dinheiro sobrando em caixa. Em 2024, as empresas reunidas sob o mesmo nome produziram US$ 47 bilhões de lucro operacional. No fim de 2025, Buffett deixou a gestão da Berkshire.

    Depois de seis décadas no comando, entregou o cargo de presidente executivo a Greg Abel, que assumiu em 1º de janeiro de 2026. Em setembro, deixou também a presidência do conselho. Formado na escola de Graham, Buffett passou seis décadas vasculhando balanços de empresas dos mais diferentes setores e fazendo, em escala cada vez maior, a conta que aprendera ainda menino: usar o dinheiro produzido por um negócio para financiar o próximo.

    Aos 96 anos, Buffett é o último capitalista da escola clássica: aquele que acumula capital, escolhe onde empregá-lo e reinveste os lucros para fazer o ciclo recomeçar. Leia também: “O Woodstock do capitalismo e o país da cerveja” , reportagem de Bruno Meyer publicada na Edição 163 da Revista Oeste O post O último capitalista clássico apareceu primeiro em Revista Oeste . ]]>

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