O Valor de Ser Aprendiz
Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo. Eu sofria com a inteligência artificial . Há uma porção de ferramentas que não sabia usar e, muitas vezes, percebia que nem sabia direito como perguntar para conseguir o que queria.
Entretanto, fui melhorando pouco a pouco. Hoje, já faço pedidos mais precisos, desconfio de muitas das respostas e, principalmente, comecei a entender um pouco melhor o que existe por trás dessa tecnologia. Tanto que logo lançarei a AGia (iniciais do meu nome), inteligência artificial que irá me auxiliar e também os profissionais que trabalham na minha clínica em uma porção de tarefas.
Outro dia aconteceu algo parecido. Um relógio que tenho quebrou. Levei a uma loja e o atendente decretou que não havia conserto.
Não me conformei e, sem entender absolutamente nada de relógios, resolvi me aventurar pela internet para buscar ajuda. Era como se tivesse virado criança de novo, explorando aquele acessório do avesso. Para minha surpresa, o relógio voltou a funcionar.
O que essas duas situações têm em comum é algo que vamos experimentando cada vez menos à medida que envelhecemos: a condição de aprendiz . Na infância, ser iniciante é nossa condição de partida. Precisamos nos lançar deliberadamente ao “desconhecido” se queremos aprender a ler, a andar de bicicleta etc.
Na vida adulta, continuamos aprendendo, logicamente, mas boa parte desse aprendizado vem por necessidade; por exemplo, um emprego diferente ou uma nova tecnologia que entrou no trabalho. O que se torna menos frequente é escolher aprender algo só porque ainda não sabemos. Uma revisão de 32 estudos sobre aprendizagem depois dos 55 anos publicada em 2021 encontrou evidências de que estar na posição de aprendiz traz benefícios para a função cognitiva, para a autoconfiança e para a satisfação com a vida.
Os trabalhos analisados também apontam ganhos relacionados à qualidade de vida e independência. Tudo isso é ganho em saúde mental. Porém, há algo igualmente importante e que esse estudo não investigou.
Ser iniciante exige aceitar que não sabemos tudo. Quem começa a cuidar de plantas depois dos 60 provavelmente vai errar em algum ponto, e tudo bem. Aprender algo novo não pede que a gente se reinvente do zero.
O ganho pode ser só o prazer de conseguir hoje que algo ontem não conseguíamos. Foi isso o que fiz com o meu relógio. Não sei se um dia vou descobrir o que fiz para o meu relógio voltar a funcionar, mas eu me orgulho de tê-lo investigado como uma criança faria.
Mais do que isso, percebi que ainda gosto muito de não saber e de tentar aprender. *Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.
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