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    O vício da miséria
    Revista Oeste·31 de out., 11:00

    O vício da miséria

    Quando tinha 20 anos, deparei-me com uma das situações mais delicadas em que me envolvi. Uma amiga muito querida, alguém por quem nutria um apreço muito grande, tinha acabado de terminar pela segunda vez um relacionamento em que seu parceiro, entre outras coisas, chegou a agredi-la e a expor suas conversas de cunho íntimo a amigos. Tentei ajudá-la de todas as maneiras possíveis.

    Coloquei-me à disposição para ir com ela a um advogado, a fim de que denunciasse as ameaças e as agressões sofridas, ainda que ocorridas há mais de sete meses, o que ela inicialmente aceitava, mas de que posteriormente desistia. Numa madrugada, busquei-a no centro da cidade após o namorado deixá-la sozinha numa praça. Noutra ocasião, confrontei o rapaz em público, e por pouco não fomos às vias de fato.

    Na época, cheguei a prejudicar meu relacionamento por essa amizade. Até que, por fim, ela voltou pela quarta vez para o rapaz, eles noivaram e depois se mudaram para Fortaleza. Após isso, em nome do meu próprio relacionamento à época, afastei-me, rogando que ela tivesse dias melhores e que seu noivo finalmente se tornasse homem de verdade.

    Por que conto isso? Porque o Brasil vive algo muito parecido. Certa vez, num treinamento de bombeiro, quando servi ao Exército, recordo-me de que um dos soldados de meu destacamento perguntou ao instrutor qual era a ocorrência mais difícil de resolver, ao que ele respondeu: os suicidas.

    Segundo ele, “era sempre mais difícil salvar quem não quer ser salvo”. v=BoUYdAN_x9U A relação de Lula com o Nordeste Independentemente das estranhezas arroladas com relação à eleição — que não foram poucas —, é fato que Lula mantém um enorme apoio, em especial no Nordeste e em grande parte do Norte, ainda que as regiões ostentem os piores indicadores de quase todo tipo de marcação social, econômica e política do país. Chego à conclusão de que existe no Brasil um sentimento de nostalgia pelo fracasso, uma necessidade de justificar o abusador, de evitar denunciar o agressor, de, sempre que possível, aplaudir o erro e buscá-lo com afinco.

    Há, aqui, uma defesa organizada e idílica do que é escasso, miserável e indigno de qualquer ser humano. E falo às claras: refiro-me desde a falta de saneamento básico e de alfabetização até as restrições à liberdade de expressão, chegando à falta assassina de segurança pública. Lula por mais quatro anos no poder não é só mais uma eleição: é a perpetuação de um poder inviolável, são mais quatro Moraes no STF , a manutenção de um ecossistema de acobertamento, luxúria corrupta e teatro de democracia.

    É a vitória do sistema. É chancelar um modelo econômico já testado no erro, aprovado no fiasco, sustentado na rapina. É eleger quem os presídios apoiam, quem sempre manteve um diálogo cabuloso e nutritivo com tudo o que não presta.

    v=QaypbWDiHWc Mas como convencer alguém de que seu relacionamento é abusivo se, sempre depois da surra, o abusador lhe entrega um bujão de presentes, uma cesta de migalhas e algumas resmas de trocados? Como mostrar aos brasileiros que a prosperidade não é somente papo de evangélico estridente, mas sim uma percepção real do que o país poderia ter se não fossem as mentes tacanhas de um partido decrépito e incapaz de deixar o povo crescer? Como explicar que não é normal depender do Estado para comprar pão na padaria?

    Que não é normal o acém custar R$ 45? Que não é normal deixar de comer carne para comer ovo? Como explicar tudo isso se uma enorme parcela da população está presa num reacionarismo doentio, numa cegueira pornográfica que lhe ensinou a assumir que farelos são abundância e dependência é liberdade?

    É difícil salvar suicidas, é difícil convencer alguém que sempre viveu na miséria de que a prosperidade é uma possibilidade. Que não é ruim ser autossuficiente, que é até mesmo bom não precisar do Estado para comprar o leite das crianças. O brasileiro é um sequestrado que aprendeu a gostar do seu cativeiro, que aprendeu a pensar que bastam o seu colchão, seu pote de restos e algumas diversões banais para ser feliz.

    É difícil salvar um país viciado em fracassos, uma nação que deliberadamente quer se suicidar. be/bqoAIA1lRRM O post O vício da miséria apareceu primeiro em Revista Oeste . ]]>

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