Oncoclínicas: dívida de R$ 5,1 bi, disputa com Goldman e elo com Banco Master expõem crise
Uma disputa sobre o controle de uma empresa brasileira de tratamento de câncer passou a envolver o Goldman Sachs, um hedge fund de Houston e a polícia de São Paulo. E isso é apenas parte do drama na Oncoclínicas . A empresa, que cresceu rapidamente, entrou em colapso de forma dramática sob o peso das dívidas e agora está envolvida em uma recuperação extrajudicial.
A Oncoclínicas chegou a atingir um valor de mercado de US$ 1,87 bilhão após sua oferta pública inicial de ações, mas desde então seu preço despencou mais de 85%. A trajetória de ascensão e queda da empresa reúne várias das características do turbulento ambiente de investimentos no Brasil nos últimos anos, com juros de dois dígitos devastando companhias alavancadas e reguladores tentando acompanhar manobras societárias complexas. Leia também Negócios Tem gente que foge de empresa em crise.
Esta executiva carioca criou uma gestora para assumi-las Negócios Por dentro dos bancos de investimento, a indústria trilionária por trás dos grandes negócios A petroquímica Braskem, a produtora de biocombustíveis Raízen, a rede de supermercados Cia Brasileira de Distribuição e outra empresa de saúde, a Kora, recorreram recentemente a recuperações extrajudiciais. A onda de dificuldades aumentou o escrutínio sobre a governança das companhias, sobretudo após a turbulência do ano passado na empresa de gestão de resíduos Ambipar, enquanto a liquidação compulsória do Banco Master em novembro, em meio a acusações de fraude, ainda repercute no meio empresarial brasileiro. “Após tantos ‘casos isolados’, o mercado deixou de dar às empresas o benefício da dúvida, alimentando o círculo vicioso que vemos agora”, disse Juan Manuel Patino, analista da Sun Capital Valores.
Ao contrário da maioria de outras crises corporativas, a situação da Oncoclínicas teve um impacto negativo direto e significativo na vida de brasileiros como Cintia Maria Rocha. A paciente de 46 anos está em sua segunda rodada de tratamento contra o câncer de mama e começou a enfrentar dificuldades quando a clínica onde se tratava, em Recife, Pernambuco, passou a fazer parte da rede da empresa. Os medicamentos usados em sua quimioterapia nem sempre estavam disponíveis, segundo ela, e frequentemente havia novos atrasos devido a questões burocráticas entre a clínica e seu plano de saúde.
“Os sentimentos que que eu consigo nomear são descaso, descuido, falta de atenção, ansiedade e aumento de medo”, disse Rocha em entrevista. A Oncoclínicas não quis comentar. Fundada em 2010 pelo oncologista Bruno Ferrari em Belo Horizonte, a Oncoclínicas passou de uma única clínica para uma das maiores redes privadas de tratamento de câncer do Brasil, atendendo centenas de milhares de pacientes por ano em dezenas de cidades.
O Goldman ajudou na expansão do negócio, que se tornou uma das maiores redes privadas de oncologia da América Latina, e detinha participação majoritária na empresa quando ela abriu o capital, em 2021. O que aconteceu em seguida tem sido objeto de uma longa disputa judicial. O Goldman disse que os veículos de investimento por meio dos quais detinha ações da Oncoclínicas, conhecidos como fundos Josephina, incluíam participação acionária mantida em nome do Centaurus, hedge fund fundado pelo ex-executivo da Enron e bem-sucedido operador de petróleo John Arnold.
Cerca de três anos após o IPO, o Goldman e o Centaurus passaram a divulgar separadamente suas participações. A mudança levou outros investidores a alegar que o Centaurus havia acionado uma cláusula de poison pill prevista no estatuto da Oncoclínicas. Se um investidor adquirir mais de 15% das ações, deverá fazer uma oferta pública de aquisição do restante dos papéis.
Leia também Negócios Oncoclínicas entra com recuperação extrajudicial para reestruturar dívida de R$ 5,1 bilhões Negócios De brigas com Usiminas e MBRF a um elo com Vorcaro: como a Latache entrou no radar da Faria Lima Durante anos, o tema ficou restrito à análise jurídica e regulatória, até que a polícia de São Paulo identificou dois funcionários do Goldman como suspeitos em uma investigação que apura se a identidade dos verdadeiros controladores da Oncoclínicas foi apresentada de forma incorreta à empresa, aos reguladores e aos investidores. Nem o Goldman nem os funcionários foram acusados formalmente de irregularidades, e o banco disse acreditar que agiu de forma adequada. Bancos incluindo o Goldman, o Citi, o JPMorgan e o UBS coordenaram o IPO da Oncoclínicas há cinco anos.
Agora, a empresa tenta reestruturar cerca de R$ 5,1 bilhões em dívidas após uma expansão baseada em aquisições pressionar o balanço, enquanto a exposição ao Banco Master levantou novas dúvidas sobre liquidez e governança. A pressão financeira sobre a Oncoclínicas se intensificou em julho, quando a companhia anunciou um acordo com alguns credores para avançar com uma reestruturação extrajudicial. Além de buscar aquisições e abrir novos centros de tratamento de câncer, a Oncoclínicas firmou parcerias com seguradoras e outros grupos de saúde.
Esse crescimento veio acompanhado de um forte aumento da alavancagem. A dívida cresceu à medida que a empresa continuou investindo em sua expansão, enquanto a geração de caixa não conseguiu acompanhar o mesmo ritmo. Com o aperto das condições de financiamento, a empresa passou a se concentrar no fortalecimento de seu balanço.
“A Oncoclínicas é mais um caso de empresa que escolheu crescer rápido, via dívida, mas sem gerar caixa suficiente”, disse Flávio Málaga, sócio da consultoria Málaga & Associados. Algumas semanas antes, o CEO Carlos Gil havia reconhecido o impacto das dificuldades financeiras sobre o atendimento aos pacientes. “Avançamos na normalização do fornecimento de medicamentos, tema que tratamos como prioridade máxima desde que começaram as pressões de liquidez”, disse Gil em teleconferência com analistas em junho.
Ele acrescentou que um FDIC de R$ 150 milhões “nos permitiu retomar gradualmente os tratamentos”. A empresa agora enfrenta ações judiciais movidas por pacientes com câncer, incluindo Rocha. As interrupções em seu tratamento afetaram seus níveis de energia e sua capacidade de levar uma vida o mais normal possível enquanto passa pela quimioterapia.
“Eles me dizem que a medicação não foi comprada. ”, disse ela. ” Sinais de preocupação entre os investidores surgiram há três anos.
Entre os que levantaram alertas estava a Polo Capital, do Rio de Janeiro, que apontou questões de governança e destacou os laços estreitos do conselho de administração com o Goldman Sachs — na época, acionista controlador da Oncoclínicas. A gigante americana de investimentos reorganizou suas participações e, em novembro de 2024, revelou a participação do Centaurus que está no centro da disputa societária. “Parece que fundos foram criados e utilizados de forma a não parecerem sujeitos ao limite de 15% por meio de propriedade direta e indireta”, disse Paulo Henrique de Almeida Carnaúba, professor de administração do Insper, em São Paulo.
“Quando essas estruturas de controle não são públicas, podem passar despercebidas. ” O Goldman não acredita que sua participação na Oncoclínicas deva acionar uma oferta pública de aquisição, sob o argumento que tanto o banco quanto o Centaurus já eram acionistas antes do IPO da empresa, em 2021, e não aumentaram suas participações desde então. O Goldman afirma que separou as participações do Centaurus em um fundo diferente e reduziu sua própria fatia devido a uma exigência das regras dos EUA de sair do investimento após 10 anos.
Atualmente, detém menos de 1% da empresa. David Castelblanco foi o executivo responsável pelo investimento do Goldman na Oncoclínicas, segundo uma pessoa com conhecimento do assunto, que pediu anonimato ao discutir informações que não são públicas. Castelblanco, atualmente sócio da RedBird Capital Partners, trabalhou por 22 anos no gigante financeiro americano.
Quando deixou o Goldman, em 2022, era managing director na divisão de merchant banking e responsável pelo private equity para a América Latina. Castelblanco não respondeu às mensagens solicitando comentários. Em abril de 2025, outro grande acionista, a Latache Capital, aderiu a um movimento para obrigar o Centaurus a fazer uma oferta pública de aquisição pelo restante das ações.
Em 25 de agosto, o colegiado da Comissão de Valores Mobiliários, a CVM, apoiou essa posição. O Centaurus sinalizou discordância da decisão, que exigiria uma oferta significativamente mais alta pelas ações restantes, já que a CVM afirmou que o preço precisa ser corrigido pela taxa básica de juros do Brasil. Na semana anterior, o fundo abriu um procedimento separado contra a Latache na câmara de arbitragem da B3, afirmando que esse é o foro adequado para a disputa.
O Centaurus destacou que desempenhou um papel de destaque na Oncoclínicas mesmo antes de seu investimento ser divulgado separadamente, com seu diretor de investimentos, Allen Gibson, ocupando um assento no conselho de administração da empresa do fim de 2019 até o início deste ano. A Oncoclínicas também desenvolveu vínculos financeiros significativos com o Banco Master. Ferrari e Daniel Vorcaro, ex-CEO da instituição financeira que foi liquidada, eram vizinhos na capital de Minas Gerais.
A Latache era gestora de dois fundos do Banco Master que compraram participação de quase 12% na Oncoclínicas em julho de 2024, somando-se a uma posição anterior e levando a participação total da instituição financeira na empresa para mais de 20%. Parte dos recursos injetados pelo banco foi usada para comprar títulos emitidos pelo próprio Master, segundo uma pessoa a par do assunto. A Oncoclínicas divulgou que detinha R$ 430 milhões em certificados de depósito bancário emitidos pelo Master.
Após o colapso da instituição, a Oncoclínicas disse ter provisionado perdas sobre aproximadamente metade desse valor e que adotaria as medidas cabíveis em relação ao restante. A exposição era relevante diante da liquidez já pressionada da Oncoclínicas e tornou-se mais um foco de preocupação para investidores. A Oncoclínicas e o Master também haviam acertado um cronograma revisado de pagamento para os investimentos, enquanto a empresa de saúde disse que pretendia exercer uma opção de recompra de ações.
Os acordos envolvendo o Banco Master e a disputa sobre a oferta pública de aquisição das ações do Centaurus dizem respeito a transações e contrapartes distintas. Em conjunto, porém, aumentaram o escrutínio sobre a forma como a Oncoclínicas financiou sua expansão, administrou relações com investidores e instituições financeiras e divulgou esses acordos aos acionistas. “Do ponto de vista financeiro e estratégico, será difícil para a Oncoclínicas sobreviver”, disse Carnaúba.
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Resumo publicado pelo SJX NEWS. O conteúdo integral pertence ao veículo de origem.
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