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    Money Times·29 de out., 20:02

    Os dois fatores essenciais para reduzir a pressão no mercado brasileiro, segundo Mansueto, do BTG

    A reprecificação recente dos ativos brasileiros reflete a combinação entre juros elevados, piora das expectativas de inflação e incertezas sobre a condução da política fiscal . Para Mansueto Almeida , sócio e economista-chefe do BTG Pactual , a definição da equipe econômica e a apresentação de um plano consistente para controlar as despesas públicas serão determinantes para recuperar a confiança dos investidores e abrir espaço para uma valorização mais sustentável da Bolsa brasileira. Mansueto falou sobre o cenário macroeconômico durante a final da Copa BTG Trader 2026, realizada em São Paulo nesta quinta-feira (29).

    O economista avalia que parte da volatilidade observada no mercado representa um ajuste de posições diante de um cenário internacional mais adverso e da falta de clareza sobre os próximos passos da política econômica. A alta do petróleo, que elevou as preocupações com a inflação global, também contribuiu para a revisão das expectativas brasileiras. “É muito mais um ajuste de posição”, afirma Mansueto, ao analisar o comportamento recente dos mercados.

    Segundo ele, não é possível interpretar os movimentos de poucos pregões como uma tendência definitiva. O rumo dos ativos dependerá dos sinais que o governo apresentar sobre a política fiscal. No cenário doméstico, as incertezas aumentaram diante das dúvidas sobre a composição da equipe econômica, a continuidade do arcabouço fiscal e as medidas que poderão conter o crescimento das despesas obrigatórias do governo.

    A expectativa em torno da política econômica também passou a incorporar as diferentes percepções do mercado sobre os candidatos. Durante o período eleitoral, investidores chegaram a precificar uma possível vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL), sob a avaliação de que seu governo poderia promover um ajuste fiscal mais robusto do que o do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Essa expectativa, no entanto, não representa uma garantia de que o ajuste seria efetivamente realizado.

    Para Mansueto, o que determinará a reação dos ativos será a capacidade do governo reeleito de apresentar medidas concretas e demonstrar compromisso com a sustentabilidade das contas públicas. “O essencial para a gente ter menos pressão no mercado é justamente esperar pela nova equipe econômica”, afirma. O economista destaca que os investidores precisam conhecer os nomes responsáveis pela condução da política econômica e, principalmente, as propostas para desacelerar o crescimento dos gastos.

    O fiscal como determinante dos preços dos ativos A preocupação central é a trajetória da dívida pública em um ambiente de juros elevados. Quando o governo não apresenta um caminho convincente para equilibrar as contas, os investidores tendem a exigir uma remuneração maior para financiar o país, o que pressiona os juros futuros e afeta o valor de diferentes classes de ativos. A combinação entre juros elevados e incerteza fiscal também prejudica o investimento privado.

    Empresas enfrentam custos de financiamento maiores, enquanto investidores passam a exigir retornos mais altos para assumir riscos no mercado brasileiro. Por outro lado, uma sinalização consistente de ajuste fiscal pode alterar essa dinâmica. Se o mercado acreditar que o crescimento das despesas será controlado, as expectativas de inflação poderão melhorar e os juros de longo prazo poderão recuar, favorecendo a valorização dos ativos.

    “Se a gente conseguir criar um ambiente com juros seguindo uma trajetória de queda, isso aumenta o valor das empresas”, explica Mansueto. O efeito pode ser particularmente importante para a Bolsa brasileira. Juros elevados reduzem o valor presente dos lucros futuros das companhias e tornam aplicações de renda fixa mais competitivas em relação às ações.

    Com a redução do custo de capital, empresas podem ganhar valor de mercado e encontrar condições mais favoráveis para captar recursos. O economista observa que o mercado brasileiro reúne empresas de qualidade e que parte dos ativos está negociada a preços deprimidos em razão das condições macroeconômicas. “É um país que tem muita empresa boa, [com a Bolsa] barata”, afirma.

    Para ele, um ambiente de maior previsibilidade fiscal poderia criar condições para uma nova onda de investimentos, emissões de ações e operações de abertura de capital. Oportunidade para o investidor estrangeiro A perspectiva de recuperação não se restringe aos investidores domésticos. Mansueto considera que o Brasil tem condições de ampliar sua participação nos fluxos internacionais de capital, sobretudo em um contexto de tensões geopolíticas e incertezas em outras regiões do mundo.

    A relativa distância do país em relação aos principais conflitos internacionais, combinada à disponibilidade de recursos naturais, à competitividade do agronegócio e à posição do Brasil como produtor e exportador de petróleo, pode funcionar como um diferencial na atração de investimentos. “O Brasil é um país que não tem nenhum conflito com qualquer outro país do mundo. Então, nós temos a grande oportunidade de ser um centro seguro para a atração de investimento”, afirma.

    Para transformar essa vantagem em recursos efetivos, contudo, será necessário reduzir o risco fiscal. Na avaliação do economista, a estabilidade das contas públicas é condição para que o país ofereça um ambiente de juros mais baixos, previsibilidade e retorno ajustado ao risco competitivo internacionalmente. O histórico recente demonstra que os fluxos estrangeiros podem mudar rapidamente quando as perspectivas para os ativos brasileiros melhoram.

    Mansueto cita o desempenho da Bolsa em 2025 e no início de 2026 como exemplos de períodos em que o mercado local atraiu recursos internacionais e apresentou forte valorização. Mas a continuidade desse movimento depende de fundamentos mais sólidos. Sem uma estratégia fiscal crível, a entrada de recursos pode perder força diante da persistência de juros elevados e da deterioração das expectativas.

    A definição da equipe econômica e a apresentação de metas claras, portanto, serão fundamentais para determinar se a reprecificação recente representa apenas uma correção temporária ou o início de uma mudança mais duradoura. O ajuste como condição para uma nova onda de investimentos Para Mansueto, o Brasil não precisa apenas recuperar a confiança dos investidores, mas também transformar essa confiança em investimentos produtivos. Com um custo de capital menor, projetos de infraestrutura podem se tornar mais viáveis, empresas podem voltar a considerar a Bolsa como fonte de financiamento e o mercado de capitais pode ampliar sua participação na economia.

    O economista ressalta que a emissão de dívida privada já se tornou uma fonte importante de financiamento para grandes projetos de infraestrutura. Entretanto, quando os recursos são captados a taxas muito elevadas, o custo financeiro pode comprometer a rentabilidade dos empreendimentos. Uma trajetória sustentável de queda dos juros ajudaria a ampliar as possibilidades de financiamento e estimularia empresas a buscar recursos por meio de ofertas públicas de ações, incluindo IPOs e follow-ons.

    A condição para esse cenário, porém, permanece a mesma: um plano fiscal capaz de convencer os agentes econômicos de que a dívida pública não continuará crescendo de forma acelerada. “Precisamos tirar o problema fiscal do horizonte para a gente se concentrar nos problemas maiores que o Brasil tem”, afirma Mansueto. Na visão do economista, o país dispõe de ativos e oportunidades para atrair capital internacional.

    O que falta é transformar esse potencial em confiança duradoura, com responsabilidade fiscal, regras estáveis e condições para que o investimento privado volte a impulsionar o crescimento. ]]>

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