Para onde vai o dólar? Moeda tem instabilidade à espera de sinalização fiscal. Veja como se proteger
O dólar caminha em 2026 para repetir o Natal de 2025. Essa “volta no tempo” das cotações, basicamente, ocorreu nas últimas duas semanas. Até o dia útil antes do segundo turno, parecia que a moeda americana fecharia 2026 mais perto do patamar simbólico de R$ 5.
Mas, depois das eleições, a divisa dos EUA voltou a flertar com o patamar de R$ 5,50. Com a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o fantasma cambial do Natal passado voltou a assombrar o real: isso aconteceu diante da perspectiva de que, com a falta de um ajuste fiscal, o crescimento da dívida e dos gastos públicos ganhe ainda mais força. De 26 de outubro até esta sexta, 6 de novembro, o dólar acumula valorização de 10,7%.
A moeda americana fechou a quinta-feira (5) a R$ 5,4876, alta de 0,67%. E, nesta sexta, sobe para a casa de R$ 5,49. Leia também Investimentos Dólar pós-eleitoral: por que o momento é de ampliar a diversificação em moeda forte A alta pós-eleitoral reflete a cautela do mercado com os rumos das políticas econômica e fiscal do governo reeleito.
Com a ausência de uma sinalização sobre a adoção ou não de um ajuste crível nas contas públicas, os investidores voltaram a pedir prêmios mais elevados para os ativos brasileiros. No caso do câmbio, o mercado busca um equilíbrio na referência anterior ao período eleitoral. Antes, portanto, do anúncio de benefícios que ampliaram os gastos públicos em centenas de bilhões de reais.
“O câmbio agora cobra clareza sobre a trajetória da dívida pública e o compromisso fiscal do novo ciclo de governo”, diz o superintendente de câmbio do Banco Rendimento, Jacques Zylbergeld. Passado o susto inicial… No primeiro pregão logo após o segundo turno, no dia 26 de outubro, o dólar chegou a passar de R$ 5,60. Mas foi em um momento de pânico no mercado, com investidores se desfazendo de posições após a supresa nas urnas.
Passado o período de choque, o câmbio busca uma estabilização na faixa entre R$ 5,40 e R$ 5,50. Para os próximos meses, as pistas podem estar no último boletim Focus, do Banco Central, que reúne projeções do mercado sobre câmbio, juros, PIB e inflação. A mediana da pesquisa indica o dólar em R$ 5,34 no fim de 2026.
Mas para 2027, a visão das instituições financeiras é de um câmbio mais apreciado, em R$ 5,40. Leia também Investimentos Ibovespa a 150 mil pontos e dólar a R$ 6? O que fazer – e o que evitar – com os mercados em pânico Muitos bancos e corretoras, porém, projetam um dólar ainda mais pressionado pela frente, potencialmente acima de R$ 5,50, se os sinais sobre a política fiscal não convencerem.
Por outro lado, caso o governo apresente nomes e propostas minimamente críveis, a divisa americana pode cair abaixo de R$ 5,30. “O momento de incertezas pede proteção e diversificação em moeda forte”, aponta a diretora comercial de câmbio e operações da B&T XP, Roberta Flogueral. Para isso, pessoas físicas e empresas “devem enxergar a dolarização [de parte do patrimônio] e o uso de contas globais como uma ferramenta básica e acessível de gestão financeira”.
Como funciona a proteção cambial Como forma de ilustrar como a diversificação internacional pode ajudar em períodos de turbulência, vamos simular uma carteira de R$ 100 mil com cerca de 15% do patrimônio investido em dólar. Vamos considerar ainda que a carteira tenha 50% aplicados em renda fixa (25% em Tesouro Selic e 15% em Tesouro IPCA+), 35% em renda variável e o restante em dólar. Se os 15% da parcela em dólar não existissem e os recursos estivessem aplicados proporcionalmente nas demais classes de ativos, o portfólio teria apresentado uma perda de 9,9% entre 26 de outubro e 6 de novembro.
Isso representaria uma queda de R$ 9,9 mil em duas semanas. Com os 15% em dólar, a queda seria reduzida para 6,8%. Isso significa que a fatia em dólar trouxe um “amortecimento” de 3,1 pontos percentuais ou de 31% em relação a carteira sem a moeda forte no período.
No caso, o portfólio com parte dolarizada teria tido uma queda de R$ 6,8 mil contra os R$ 9,9 mil sem fatia em moeda forte. Uma diferença de R$ 3,1 mil. BC monitora o dólar pós-eleitoral O cenário para a moeda americana, basicamente, depende das decisões do governo.
Até mesmo o Comitê de Política Monetária do BC ( Copom ) parece endossar a visão dos investidores. Na quarta-feira (4), o comunicado do Copom sobre a decisão que manteve a Selic em 13,75% ao ano desenhou um quadro no qual a política fiscal ocupa o principal lugar entre os fatores de deterioração das condições financeiras que levou o colegiado indicar que pretende segurar os juros altos por mais tempo. Leia também Investimentos Copom só volta a cortar juros em 2027.
Isso se o governo ajudar, dizem economistas Investimentos O BC está contra a parede e, sem ajuste fiscal, o Brasil entra em recessão, diz Tony Volpon O BC enfatizou, por exemplo, que ruídos ou incertezas em relação à trajetória das contas públicas aumentam o prêmio de risco exigido pelos investidores e levam à depreciação do real. Essa alta do dólar, por sua vez, encarece produtos importados e insumos, gerando pressão inflacionária. A decisão do Copom, tomada por unanimidade, interrompeu uma sequência de cinco cortes, e o comunicado duro jogou a bola para o campo do governo.
Queda de ações de tecnologia Já o fator externo ajuda e atrapalha. Uma valorização de 1% do dólar no exterior tende a produzir depreciação semelhante do real. Em um cenário de queda de ações de tecnologia, como ocorreu na quinta-feira (5), quando o índice Nasdaq apresentou um recuo de mais de 5%, isso pode ampliar o fluxo de recursos internacionais para a renda fixa americana, que paga retornos que não são vistos em quase 20 anos.
Leia também Investimentos Bitcoin afunda pressionado por ações de IA e “onda azul” nos EUA Ao mesmo tempo, analistas reforçam que a tendência, em meio à inflação em alta no exterior, é a de que os Estados Unidos e outras economias avançadas precisem elevar ainda mais as taxas. A ferramenta CME FedWatch, que acompanha o posicionamento de investidores sobre os rumos futuros da política monetária americana, mostram 74,8% de chances de o Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) elevar os juros na reunião de 8 e 9 de dezembro. Pronunciamento de Lula O que mais pesa nas próximas semanas será uma esperada sinalização fiscal.
O presidente Lula tem programado um pronunciamento em cadeia nacional de TV no domingo (8) para anunciar, segundo se comenta, um compromisso com a responsabilidade fiscal, que acalme o mercado. Ainda que o discurso possa afastar temores sobre a adoção de soluções não convencionais de política fiscal, como passou a ser especulado, a expectativa é a de que um detalhamento das ações de contenção de gastos e aumento de arrecadação fique para as próximas semanas. Mais precisamente após a COP 31, a cúpula do clima, na Turquia, para onde o presidente viaja na segunda (9) e só volta depois de uma semana.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, prometeu anunciar as medidas ainda este ano, com definição após a COP 31. A conta não é pequena: as promessas de campanha exigem ajustes de ao menos R$ 40 bilhões no Orçamento de 2027. ]]>
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