Por que encontrar bens de devedores é tão difícil, mesmo com o avanço da IA?
A inteligência artificial (IA) já é utilizada para cruzar informações e analisar documentos na busca por bens de devedores . Mesmo com a tecnologia, recuperar uma dívida pode ser um processo demorado. Isso porque encontrar o patrimônio é apenas uma das etapas da cobrança.
O problema ganha dimensão diante dos números da inadimplência no Brasil. Segundo a Serasa Experian, o país chegou a 9,3 milhões de empresas inadimplentes em agosto de 2026 , com R$ 244,4 bilhões em dívidas negativadas. Isso não significa que todas estejam respondendo a processos judiciais, mas ajuda a dimensionar o volume de débitos que podem demandar medidas de recuperação de crédito .
Na Justiça, a dificuldade de fazer cumprir obrigações também aparece nos indicadores. De acordo com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a taxa de congestionamento dos processos em fase de execução chegou a aproximadamente 71% em 2025 . Leia também Negócios Recuperação judicial bate recorde no Brasil — veja as 5 maiores RJs da história Finanças Doação com usufruto: como doar um imóvel em vida sem perder o direito de morar nele Por que é difícil encontrar bens de devedores?
Um dos principais obstáculos é a ausência de um cadastro único capaz de reunir todo o patrimônio de uma pessoa ou empresa, com informações completas sobre sua situação jurídica. Imóveis, veículos, participações empresariais e outros direitos são registrados em bases diferentes. Dependendo da cobrança, os profissionais precisam reunir esses dados e investigar possíveis vínculos entre pessoas físicas e jurídicas.
A busca por bens de devedores esbarra em diferentes dificuldades: Informações dispersas: os registros patrimoniais estão distribuídos entre diferentes sistemas e instituições, o que exige consultas e cruzamento de dados; Relações patrimoniais complexas: transferências de bens, participações societárias e patrimônios em nome de terceiros podem dificultar a identificação do que realmente pertence ao devedor; Documentos extensos: registros antigos ou digitalizados com baixa qualidade podem exigir horas de leitura e conferência. Uma matrícula imobiliária, por exemplo, reúne o histórico jurídico de um imóvel, incluindo mudanças de titularidade, garantias e outras alterações. Mesmo depois de localizar o registro, é necessário verificar se o bem pertence ao devedor e se há restrições à sua utilização na cobrança.
O mesmo cuidado vale para participações empresariais. Identificar uma ligação entre o devedor e determinada companhia não significa que o patrimônio dessa empresa possa ser automaticamente utilizado para pagar a dívida. Como a inteligência artificial ajuda na investigação patrimonial?
As tecnologias usadas na investigação patrimonial atuam em etapas diferentes. Algumas permitem localizar registros, enquanto outras cruzam informações para identificar vínculos econômicos. Há ainda ferramentas de inteligência artificial voltadas à leitura e à organização de documentos.
Entre as soluções utilizadas nesse trabalho estão: Pesquisa Nacional de Bens: disponibilizada pelo Operador Nacional do Sistema de Registro Eletrônico de Imóveis (ONR) , permite localizar registros imobiliários associados a pessoas físicas e jurídicas. 600 cartórios e aproximadamente 90 milhões de matrículas imobiliárias ; Sniper: sistema do CNJ que integra informações de diferentes bases e permite visualizar relações entre pessoas, empresas e patrimônios. De acordo com o conselho, a ferramenta registrou cerca de 550 mil buscas em um ano; Ferramentas privadas: empresas como a Neoway, da B3, e a Hunter oferecem soluções de cruzamento de informações patrimoniais e empresariais.
Já a Docket utiliza IA para extrair e organizar dados de documentos, incluindo registros imobiliários. Essa última aplicação também é explorada pela LEME Inteligência Forense , que desenvolveu uma ferramenta para automatizar a leitura de matrículas imobiliárias. Em um caso relatado pela empresa, uma investigação envolveu mais de 600 matrículas relacionadas a um único devedor .
Desde o início dos testes da ferramenta, em maio de 2026, a LEME afirma ter processado 462 mil matrículas . Segundo Leonardo Botelho Schulka, responsável pela área jurídica e de investigação da companhia, documentos antigos e imagens de baixa qualidade podem provocar erros de leitura. Por isso, os resultados precisam ser conferidos nos registros originais.
A interpretação jurídica das informações também continua sob responsabilidade dos profissionais envolvidos na investigação. Encontrar patrimônio não garante a recuperação da dívida Localizar um bem é apenas uma parte do processo de cobrança. Mesmo quando o patrimônio é identificado corretamente, podem existir impedimentos legais à penhora, procedimento que permite vincular determinados bens ao pagamento de uma obrigação.
009/1990 . Como regra geral, o imóvel residencial familiar não pode ser penhorado, embora a legislação estabeleça exceções. Em agosto de 2026, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) reafirmou que o alto valor de mercado de uma residência, por si só, não afasta essa proteção.
A investigação patrimonial também precisa respeitar as regras de proteção de dados e as autorizações judiciais exigidas em cada situação. Assim, as ferramentas digitais podem acelerar a localização de registros, o cruzamento de informações e a análise de documentos. Mas encontrar bens de devedores não significa comprovar que eles podem ser penhorados , tampouco garante que o credor conseguirá recuperar o dinheiro.
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Resumo publicado pelo SJX NEWS. O conteúdo integral pertence ao veículo de origem.
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