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    Por que o gato prefere a caixa de papelão e não a cama cara que você comprou?
    CNN Brasil·24 de out., 12:02

    Por que o gato prefere a caixa de papelão e não a cama cara que você comprou?

    Quem compra uma cama acolchoada para o gato e vê o pet escolher a caixa em que ela veio embalada pode até estranhar, mas essa atitude não é uma exceção. A cena se repete em casas do mundo todo e já rendeu até estudo em universidades da Europa e dos Estados Unidos. Segurança, calor, controle do ambiente e instinto de caça aparecem como as explicações mais consistentes, e a preferência também pode servir de termômetro para o bem-estar do animal.

    O corpo do gato pede espaço fechado O gato doméstico ocupa uma posição incomum na cadeia alimentar: caça pequenos animais, mas também pode virar presa de cães ou aves de rapina. Essa dupla condição molda o comportamento em ambientes fechados. Para Nicholas Dodman, professor emérito de farmacologia comportamental e comportamento animal da Escola de Medicina Veterinária Cummings, da Universidade Tufts, o padrão é evidente: em espaços pequenos, os felinos se sentem muito mais seguros e protegidos do que em áreas amplas e abertas.

    Uma cama de bordas baixas garante conforto, mas não oferece a mesma sensação de proteção que uma caixa de papelão entrega de graça. Leia mais Por que seu pet esconde comida e brinquedos pela casa? Entenda o comportamento É algo que todo dono de cachorro sabe mas agora temos a ciência para provar: os cães realmente conseguem perceber quando estamos felizes ou tristes Por que os gatos miam em frente a uma porta fechada?

    Entenda o comportamento dos felinos O que os estudos com gatos de abrigo mostraram A hipótese já foi testada fora da sala de estar. Pesquisadores da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Utrecht , na Holanda, acompanharam gatos recém-chegados a um abrigo, parte deles com acesso a uma caixa para se esconder. No primeiro levantamento, os dez animais com caixa se recuperaram mais rápido do estresse da chegada do que os nove sem o recurso, segundo artigo publicado na revista Applied Animal Behaviour Science.

    Um segundo estudo do mesmo grupo, de 2019, ampliou o desenho experimental. Foram 23 gatos entre 1 e 10 anos, divididos entre doze com caixa e onze sem, observados por doze dias em quarentena. Os que tinham onde se esconder atingiram um nível de estresse baixo e estável sete dias antes dos demais, conforme o trabalho publicado na revista científica PLOS ONE.

    O mesmo estudo mostrou os limites do recurso: a caixa não evitou a perda de peso registrada em quase todos os animais nas duas primeiras semanas, nem mudou as taxas de adoção ou o tempo de permanência no abrigo. Instinto de caça também entra na escolha Além de esconderijo, a caixa funciona como posto de observação. Mikel Delgado, consultora em comportamento felino da Ease Pet Vet e pesquisadora sênior da Universidade Purdue, explica que gatos que vivem soltos procuram vãos e vegetação para não serem vistos por presas nem por predadores.

    Dentro de casa, a lógica se repete: as paredes escondem o corpo do animal e a abertura de cima permite o bote sobre um brinquedo ou inseto. A novidade do objeto também pesa, já que um gato de apartamento memoriza cada canto do território e nota de imediato qualquer peça nova. Amanda Caron, comportamentista felina e fundadora da consultoria Frisky Feline Behavior Counseling, destaca a utilidade do objeto para o pet: “as caixas agregam valor ao ambiente deles”, afirma a especialista.

    Na prática, a mesma caixa serve como esconderijo, lugar de descanso e território a ser explorado, tudo em um único item descartável. A lembrança dos primeiros dias de vida A atração por espaços fechados remonta ao início da vida do gato. A fêmea busca um canto quieto para parir, e os filhotes nascem já dentro de um abrigo natural.

    Danielle Gunn-Moore, professora de medicina felina da Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, lembra que “a primeira experiência deles será um espaço seguro e fechado”. Segundo ela, mais de um estudo associou o acesso a uma caixa à queda de hormônios do estresse, como o cortisol, em gatos recém-resgatados. Dodman propõe outra camada para essa explicação.

    Para ele, o contato do corpo com as paredes da caixa reproduziria o aconchego de dormir junto da mãe e dos irmãos de ninhada, e poderia liberar endorfinas, substâncias ligadas ao prazer e ao alívio de tensão. O pesquisador compara o efeito ao do enfaixamento usado com recém-nascidos humanos, prática que também busca acalmar por meio da pressão constante sobre o corpo. Temperatura e anatomia ajudam a explicar a escolha O fator térmico também conta.

    A maioria das casas mantém temperatura entre 22 e 24 graus ºC, faixa considerada fria para o conforto de um gato, segundo observação da clínica veterinária americana Veterinary Healthcare Associates. O papelão funciona como isolante e o espaço reduzido ajuda a reter o calor do próprio corpo, o que reforça o hábito de se enrolar dentro da caixa. A anatomia do animal colabora com esse comportamento.

    Segundo Caron, a coluna flexível e a clavícula flutuante dos gatos permitem que eles se contorçam para caber em espaços minúsculos, o que explica por que insistem em ocupar caixas visivelmente pequenas para o tamanho do corpo. A textura áspera do papelão corrugado ainda estimula o hábito natural de arranhar e morder , em uma referência sensorial próxima à casca de árvore para os gatos que vivem só dentro de casa. Quando o esconderijo diz algo sobre o bem-estar Buscar a caixa é um comportamento esperado, mas o contexto separa o normal do preocupante.

    Delgado observa que um gato encolhido no fundo da caixa, com os olhos arregalados, usa o espaço de um jeito bem diferente de outro que cochila ali ou salta para dentro e para fora em brincadeira. Gunn-Moore reforça que o animal precisa de um lugar para se retirar quando não controla o ambiente, mas pondera que passar o tempo todo escondido não é sinal positivo. Lambedura excessiva, mudança de apetite e problemas com a caixa de areia costumam acompanhar quadros de estresse mais sérios .

    Nesses casos, Delgado recomenda buscar orientação veterinária e, se necessário, encaminhamento a um especialista em comportamento animal, capaz de ajudar o gato a lidar melhor com os próprios medos. Uma solução barata para manter em casa No fim das contas, o que se observa é que a caixa não substitui a cama , mas pode conviver com ela sem custo adicional. O Programa de Medicina de Abrigos Maddie’s, da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Cornell, recomenda esconderijos para gatos recém-chegados a abrigos e cita a caixa de papelão ao lado de caixas plásticas, transportadoras e casinhas comerciais como opções.

    A orientação do programa é que o papelão, por ser barato e não poder ser higienizado, sirva a um único animal antes de ser descartado ou reciclado. Manter uma caixa disponível em casa custa pouco e pode ajudar em momentos de mudança de rotina, chegada de visitas ou adaptação de um gato recém-adotado. A recomendação, nesses casos, é observar como o animal usa o espaço: um sinal a mais sobre como ele está lidando com o próprio ambiente.

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