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    Por Que os Microplásticos Entrararam no Radar do Agro por Meio do Algodão
    Forbes Brasil·25 de set., 07:59

    Por Que os Microplásticos Entrararam no Radar do Agro por Meio do Algodão

    Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo. ” A frase da presidente da Associação Baiana de Produtores de Algodão (Abapa), Alessandra Zanotto Costa, abriu um dos debates centrais do último dia do 15º Congresso Brasileiro do Algodão. No palco, o movimento “Microplástico é o Fim da Linha” colocou uma questão que vai muito além da escolha entre uma camiseta de algodão ou uma peça de poliéster.

    O que está em discussão é o tipo de matéria-prima que o Brasil pretende consumir, produzir e estimular nos próximos anos. A discussão reuniu representantes da produção agrícola, da medicina, do meio ambiente, da indústria e do varejo para tratar de saúde pública, poluição, competitividade e política econômica. A proposta que saiu do encontro é transformar informação, pesquisa e inovação em instrumentos capazes de ampliar o espaço das fibras naturais, com o algodão no centro dessa estratégia.

    A Forbes Agro desde o início da semana vem acompanhando os debates do evento. O ponto de partida é uma contradição brasileira. O país produz cerca de 4 milhões de toneladas de algodão, tornou-se o maior exportador mundial da fibra e possui a quinta maior indústria têxtil do planeta.

    Ainda assim, apenas 20% da produção de algodão permanece no mercado doméstico. Os outros 80% seguem principalmente para a Ásia. “Somos um dos principais produtores e o maior exportador de algodão do mundo, mas isso não se reflete no que o Brasil veste”, disse Alessandra.

    Fernando Rati, head de Negócios e Relações Internacionais da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), colocou os números do consumo no centro da discussão. O consumo doméstico de algodão está próximo de 700 mil toneladas, enquanto a importação brasileira de fibras sintéticas chega a cerca de 2 milhões de toneladas. No vestuário, a participação é ainda menor: 25% de algodão, 71% de fibras sintéticas e cerca de 4% de fibras artificiais, como viscose.

    “Hoje, de tudo o que nós vestimos, 25% é algodão e mais de 70% são fibras sintéticas, 71%, para ser mais exato”, afirmou. É uma mudança importante na estrutura de um mercado que já foi mais dependente das fibras naturais. Há dez anos, segundo Rati, o algodão representava cerca de 40% do que os brasileiros vestiam.

    A queda ocorreu enquanto o consumo de fibras sintéticas avançou, em grande parte sustentado por matérias-primas de origem fóssil. No mundo, o movimento é semelhante. O levantamento mais recente da Textile Exchange aponta produção global de 139 milhões de toneladas de fibras em 2025.

    As sintéticas responderam por aproximadamente 96 milhões de toneladas, perto de 70% do total. O algodão alcançou 25,7 milhões de toneladas, cerca de 18% do mercado. O poliéster sozinho chegou a 82,5 milhões de toneladas, sendo 72,8 milhões de toneladas produzidas a partir de matéria-prima fóssil.

    Em termos de valor, para fibras naturais, a Fortune Business Insights estima o mercado global em US$ 62,9 bilhões (R$ 326,6 bilhões, na cotação atual) em 2025, com projeção para US$ 99,3 bilhões (R$ 515,6 bilhões) em 2034 , crescimento médio de 5,1% ao ano entre 2026 e 2034. Já para as fibras sintéticas o mercado chegou a US$ 98,9 bilhões (R$ 513,5 bilhões) em 2025 e projeta US$ 176,9 bilhões (R$ 918,5 bilhões) em 2034, com crescimento médio de 6,7% por ano. A fotografia ajuda a entender o tamanho do desafio.

    O mercado sintético opera em uma escala superior à das fibras naturais. No Brasil, existe ainda uma particularidade. O país reúne uma grande produção agrícola de fibra natural e, ao mesmo tempo, depende de fibras químicas para abastecer sua indústria.

    O plástico que chega ao corpo Divulgação/CBA No vestuário, a participação é de 25% de algodão, 71% de fibras sintéticas e cerca de 4% de fibras artificiais A campanha “Microplástico é o Fim da Linha” nasceu justamente dessa mudança na composição das roupas. Para Paulo Saldiva, professor titular de Patologia da Faculdade de Medicina da USP, o problema precisa ser observado também pelo lado da saúde. Médico e patologista, Saldiva trabalha com a leitura de doenças e alterações encontradas no corpo humano.

    Ele relatou ao congresso a identificação de micropartículas em tecidos e chamou atenção para a necessidade de transformar os dados médicos em informação para a sociedade. “Vim aqui para falar em nome das pessoas, dar voz às pessoas adoecidas e àquelas em que a gente pode detectar os efeitos do ambiente no corpo”, afirmou. ” A discussão não ficou restrita ao organismo humano.

    Michel dos Santos, especialista em políticas públicas da organização não-governamental WWF-Brasil, levou o debate para o ciclo completo da roupa, desde a matéria-prima até o descarte. Segundo os dados apresentados, as microfibras provenientes de tecidos sintéticos podem representar entre 16% e 35% dos microplásticos lançados nos oceanos. “Se o problema dos microplásticos têm uma dimensão sistêmica, a solução também precisa ser sistêmica”, disse.

    É aí que a escolha da fibra deixa de ser apenas uma decisão de indústria ou de consumidor. Ela passa a envolver desenho de produto, rastreabilidade, descarte, reciclagem e política pública. “A escolha da matéria-prima tem consequências que não terminam na produção da roupa em si: precisamos olhar o ciclo de vida completo do produto”, afirmou Michel.

    Do campo para a etiqueta Se o problema é sistêmico, a resposta também terá de atravessar a cadeia produtiva. O varejo apareceu no painel como uma das pontes entre o produtor de algodão e quem compra uma roupa. Bô, e que faturou R$ 1,24 bilhão em 2025, a estratégia também passa pela rastreabilidade.

    Renata Viacava, diretora de Marcas da Veste lembrou que a Dudalina possui cerca de 71% de algodão em seu portfólio. “Somos o elo entre o campo e o consumidor; para nós é muito importante trazer transparência e divulgar essa fibra tão relevante”, afirmou. A lógica é transformar a informação em parte do produto.

    Rastrear a origem do algodão, comprovar práticas agrícolas, informar o consumidor e criar mecanismos que reconheçam esse esforço são movimentos que aproximam a fazenda da etiqueta. Eduardo Ferlauto, diretor de Sustentabilidade da Lojas Renner, com receita líquida de R$ 13,8 bilhões, destacou que a empresa trabalha com metas de descarbonização para 2030 e que a escolha da matéria-prima é um dos pontos centrais dessa estratégia. A companhia informa que todo o algodão utilizado em suas peças possui certificação de sustentabilidade e mantém parceria com a Abapa e a Better Cotton Initiative desde 2016.

    “A estratégia de sustentabilidade veio como um viabilizador para a mudança de ‘mindset’, permitindo nos aproximar cada vez mais da indústria”, disse Ferlauto. O próximo mercado pode estar no crédito Divulgação/CBA Miguel Novato: “A externalidade ocorre quando se paga pela destruição da natureza sem perceber” A parte mais embrionária e talvez uma das mais econômicas do debate veio de Miguel Novato, um dos articuladores do RenovaBio e que atualmente está à frente da Embrapa Arroz e Feijão, em Santo Antônio de Goiás (GO). A proposta apresentada por ele ainda está em fase inicial, mas parte de uma lógica conhecida no mercado de biocombustíveis: medir a diferença de impacto entre alternativas e transformar essa diferença em valor econômico.

    A ideia recebeu o nome de RenovaTêxtil. O desenho apresentado considera um mecanismo de certificação e compensação capaz de calcular externalidades associadas às fibras fósseis, como emissões de CO2, geração de resíduos e impactos relacionados aos microplásticos. O modelo usaria meta-análises de estudos internacionais para comparar a pegada socioambiental das fibras sintéticas com a produção sustentável de algodão.

    “A externalidade ocorre quando se paga pela destruição da natureza sem perceber; precisamos de políticas públicas que tragam o custo real dessas escolhas”, afirmou Novato. A lógica é semelhante à do RenovaBio. A diferença de impacto entre uma matéria-prima fóssil e uma alternativa renovável seria transformada em uma valoração e, posteriormente, em créditos destinados à cadeia que comprovassem menor impacto.

    No caso do algodão, a proposta poderia favorecer produtores certificados, desde que a metodologia consiga medir e comprovar os ganhos ambientais e sociais. É importante destacar que não existe ainda um mercado estabelecido para esse mecanismo. O estudo apresentado no congresso é uma proposta em construção.

    Os próprios números de potencial econômico são projeções dos simuladores desenvolvidos por Novato, e não uma estimativa consolidada de mercado. O material do painel menciona a possibilidade de agregar dezenas de bilhões de dólares à cadeia nos próximos anos, caso um sistema de precificação de externalidades seja implantado. A vantagem inicial do algodão brasileiro, segundo o especialista, está na estrutura da própria cadeia.

    A produção possui sistemas de certificação, rastreabilidade e integração entre produtores, algodoeiras e indústria. Isso permitiria construir uma base de dados para medir práticas agrícolas e ambientais e, a partir daí, atribuir valor econômico à descarbonização. O futuro, portanto, não depende apenas de produzir mais algodão.

    Depende de provar como ele foi produzido e quanto valor ambiental aquela produção entrega. O post Por Que os Microplásticos Entrararam no Radar do Agro por Meio do Algodão apareceu primeiro em Forbes Brasil . ]]>

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