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    InvestNews·03 de nov., 18:32

    Por que países europeus recomendam estoques de comida e água para três dias?

    Governos europeus estão orientando famílias e empresas a se preparar para enfrentar até 72 horas de interrupção de serviços essenciais, como energia elétrica, água, telefonia e internet. A recomendação faz parte de uma estratégia de prevenção adotada pela União Europeia e implementada de diferentes formas pelos países do bloco e por outros governos europeus. A proposta é que a população consiga atender às necessidades básicas durante os primeiros dias de uma emergência, enquanto autoridades e equipes de socorro trabalham para restabelecer os serviços.

    As orientações consideram diferentes situações, desde tempestades, enchentes e apagões até ataques cibernéticos, sabotagens e conflitos geopolíticos. Isso não significa que os governos estejam prevendo uma catástrofe ou uma interrupção generalizada dos serviços, mas que procuram reduzir a vulnerabilidade da população diante de acontecimentos que podem afetar a infraestrutura. A estratégia ganhou espaço na União Europeia.

    Em março de 2025, a Comissão Europeia apresentou um plano para melhorar a capacidade de resposta a crises, incluindo a recomendação de que os cidadãos consigam manter condições básicas de autonomia por pelo menos 72 horas. Nos Países Baixos, o governo distribuiu orientações de preparação a cerca de 8,5 milhões de domicílios. Já o Reino Unido lançou, em outubro de 2026, uma campanha de três anos para incentivar medidas preventivas.

    A França também mantém um guia oficial com recomendações para que as famílias tenham autonomia durante três dias. Leia também Economia Calor extremo leva rede elétrica do Reino Unido ao limite Economia Sem emprego e sem perspectiva, jovens britânicos lotam filas de alistamento militar Por que a Europa recomenda preparação para 72 horas? A referência de três dias corresponde a um período inicial de autonomia para situações em que serviços essenciais deixem de funcionar.

    A estratégia apresentada pela Comissão Europeia em março de 2025 considera diferentes riscos, desde desastres naturais e eventos climáticos extremos até ataques cibernéticos, conflitos geopolíticos e interrupções de infraestrutura. A orientação não significa que os governos prevejam uma crise com duração exata de três dias. A ideia é reduzir a necessidade de assistência imediata enquanto autoridades e equipes de emergência concentram esforços nas situações mais graves.

    Nos Países Baixos, a campanha Denk Vooruit , expressão equivalente a “Pense no futuro”, concentra as recomendações em três medidas: Montar um kit de emergência , com suprimentos para enfrentar interrupções de serviços essenciais; Elaborar um plano familiar para orientar as ações durante uma emergência; Conversar com pessoas próximas sobre como agir caso ocorra uma interrupção. O Reino Unido adotou uma abordagem semelhante com a campanha Be Ready , lançada em 22 de outubro de 2026. Mais de 500 organizações aderiram à iniciativa, que incentiva a população a se preparar para problemas como falta de energia, água, telefonia e internet.

    Entre as recomendações estão manter alimentos não perecíveis, medicamentos essenciais, lanternas e equipamentos de comunicação que funcionem sem eletricidade. A preparação para emergências já influencia o consumo Nos Países Baixos, o incentivo à formação de estoques domésticos começou a se refletir no comportamento de compra. 544 consumidores entrevistados haviam comprado algum produto para montar um kit de emergência.

    Entre aqueles que já tinham preparado um kit, 68% adquiriram água especificamente para essa finalidade. A empresa também observou crescimento nas vendas de rádios de emergência, baterias e alimentos em conserva. O movimento, porém, não pode ser atribuído exclusivamente às campanhas públicas.

    A própria NielsenIQ constatou que a procura por rádios já crescia antes da divulgação das orientações. Uma avaliação posterior do governo holandês também apontou mudanças. A proporção de pessoas com kits de emergência passou de 30% para 44% , enquanto a parcela que declarava possuir um plano completo para essas situações aumentou de 5% para 12%.

    A ampliação desse consumo, no entanto, esbarra em limitações financeiras e práticas. No Reino Unido , uma pesquisa do governo mostrou que 37% dos entrevistados afirmavam ter água engarrafada suficiente para três dias. Mas, quando o volume declarado foi comparado à recomendação de três litros por pessoa diariamente, apenas 4% disseram atingir a quantidade indicada.

    O levantamento também identificou os principais obstáculos à preparação: 29% dos participantes citaram a falta de dinheiro ; 25% demonstraram preocupação com produtos que poderiam vencer; 18% apontaram a falta de espaço para armazenamento. Governos também querem preparar empresas para falhas nos serviços A preocupação dos governos europeus não se limita às famílias. Nos Países Baixos, o Ministério da Economia lançou, em maio de 2026, uma campanha voltada às empresas, incentivando a elaboração de planos para manter atividades essenciais durante interrupções de energia, internet e abastecimento.

    A iniciativa responde a vulnerabilidades identificadas pelo próprio governo. Segundo dados divulgados pelo país, 51% das empresas pesquisadas não haviam adotado medidas preventivas para determinados tipos de interrupção. Apenas 15% se consideravam altamente preparadas para falhas de internet e serviços de nuvem.

    O risco é operacional e financeiro. Uma falha de conexão pode impedir pagamentos, interromper pedidos e comprometer a comunicação com fornecedores. Mesmo de portas abertas, uma loja pode perder vendas se não conseguir receber dos clientes ou repor mercadorias.

    Nos Países Baixos, essa dependência fica evidente nos meios de pagamento. Em 2025, 83% das transações presenciais foram realizadas eletronicamente , segundo o De Nederlandsche Bank (DNB), o banco central holandês. Para reduzir os efeitos de uma eventual interrupção, autoridades passaram a recomendar que consumidores mantenham reservas de € 70 por adulto e € 30 por criança , valores de referência para cobrir necessidades básicas durante três dias sem pagamentos eletrônicos.

    Para os comerciantes, a orientação é manter troco e alternativas de cobrança. Segundo levantamento do DNB, 78% dos estabelecimentos pesquisados solicitam pagamentos em dinheiro quando o cartão fica indisponível, enquanto 47% guardam troco adicional para essas situações. Mas receber pagamentos é apenas uma parte do problema.

    As orientações do governo também incentivam as empresas a preparar alternativas para manter suas operações. Entre as medidas recomendadas estão: Identificar quais atividades são indispensáveis para o funcionamento do negócio; Preparar alternativas para falhas de comunicação e de serviços digitais; Planejar como lidar com atrasos nas entregas e interrupções no fornecimento de insumos. Um episódio recente mostrou como essas dependências podem afetar grandes operações comerciais.

    Em outubro, a rede holandesa Albert Heijn , do grupo Ahold Delhaize, enfrentou um incidente de cibersegurança que levou ao desligamento preventivo de parte de seus sistemas. Sites e aplicativos ficaram indisponíveis, pedidos e entregas online foram suspensos temporariamente e houve problemas no abastecimento de algumas lojas. A RTL Z estimou que o episódio poderia ter provocado entre € 120 milhões e € 150 milhões em faturamento não realizado .

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