Quando faltam otários
André Burger* Para cada otário que surge, um malandro surge também. Da mesma forma, não é possível termos uma sociedade apenas de malandros ou de otários. Esta é uma explicação para boa parte da história do Rio de Janeiro (RJ).
Desde cedo, estabeleceu-se, na região, uma espécie de equilíbrio natural entre os que levam vantagem e os que são enganados. Afinal, não existe malandro autossuficiente. Todo pilantra precisa de alguém que pague a conta.
O vigarista necessita do crédulo, o esperto, do incauto, o salafrário, do mané. São relações simbióticas: um não sobrevive sem o outro. O RJ se estabeleceu assim desde suas origens.
Para cada europeu que trouxe uma miçanga, houve um índio disposto a trocá-la por algo que o recém-chegado considerava mais valioso. Saíram as miçangas, mudaram os personagens e os métodos, mas o princípio se desenvolveu na região. A malandragem se incorporou ao folclore carioca.
O malandro é esperto, criativo, irreverente, contorna regras, conhece atalhos e, sobretudo, não gosta de ser confundido com um otário. Ser enganado é tolerável, mas ser reconhecido como alguém que foi enganado é humilhante. Durante muito tempo, parece ter existido um equilíbrio entre espertos e incautos, salafrários e manés.
A sociedade funcionava. O problema começou quando todos os cariocas resolveram ser malandros. A valorização cultural da esperteza produziu o que qualquer economista poderia prever: excesso de oferta.
Os malandros se multiplicaram e os otários começaram a rarear. O Rio passou a sofrer de uma grave escassez de pessoas dispostas a ser passadas para trás. Aí começaram os problemas.
Um malandro diante de um otário tem um negócio. Dois malandros diante de um otário têm uma disputa. Dois malandros tentando enganar um ao outro têm um conflito.
Aqui já se explica parte da violência carioca: a insuficiência de otários. Durante algumas décadas, tentou-se corrigir esse desequilíbrio com a imigração de nordestinos para o Rio. Chegavam em grande número, desconhecendo inicialmente as sutilezas da cultura local, e ajudavam a recompor o estoque de trouxas necessário ao equilíbrio social.
Funcionou por algum tempo. O problema é que o nordestino aprende rápido. À medida que se “acariocava”, percebia que determinadas regras admitiam interpretações criativas, que nem todo negócio imperdível devia ser feito e, principalmente, que ser excessivamente crédulo na Cidade Maravilhosa não era uma vantagem competitiva.
O incauto retirante se transformava, também, em malandro, agravando o problema e fazendo a escassez voltar. Para uma sociedade com tantos espertos, é necessário um número equivalente de paspalhos. A expansão da oferta de malandros exige correspondente expansão da demanda por seus serviços.
Sem isso, o mercado entra em desequilíbrio. Uma tentativa relevante de recompor esse equilíbrio entre vigaristas e néscios é a permanente promoção do RJ como principal destino turístico brasileiro. O turista é um simplório de qualidade superior.
Chega ingênuo, temporariamente desinformado e, melhor ainda, vai embora antes de ficar esperto e aprender todas as regras. O turista não conhece o preço das coisas, não sabe onde pode andar com segurança, desconhece convenções locais e, habitualmente, não fala português. É o material humano ideal.
Por isso é tão importante promover o Errejota e seus satélites, Búzios, Angra dos Reis e Paraty. Aviões, navios e ônibus despejam regularmente milhares de novos candidatos a manés, permitindo que taxistas criativos, vendedores imaginativos, golpistas profissionais e amadores mantenham viva uma tradição secular. O turismo apresenta ainda uma enorme vantagem sobre a imigração nordestina: é renovável.
O nordestino chegava, aprendia e acabava virando mais um malandro carioca. O turista chega, é enganado e vai embora. Logo desembarca outro em seu lugar.
É um modelo mais sustentável. Contudo, nenhuma instituição representa tão bem a relação entre o malandro e o otário quanto a política. É nela que o modelo ganha escala.
O malandro comum consegue enganar poucas pessoas por vez. Trata-se de um modelo artesanal, pouco produtivo e difícil de ampliar. O político resolveu esse problema.
Descobriu que é possível enganar milhares, centenas de milhares e até milhões simultaneamente. O Errejota desenvolveu especial competência nessa modalidade. Nos últimos 30 anos, cinco pessoas que ocuparam o governo do Estado foram presas.
Não estamos falando apenas de políticos investigados, denunciados, afastados ou criticados. Foram presos. Sérgio Cabral, Luiz Fernando Pezão, Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho e Moreira Franco passaram, em algum momento, pela experiência de trocar o Palácio das Laranjeiras por instalações prisionais.
Quando ampliamos o levantamento para outros cargos eletivos, o fenômeno se alastra. Nos últimos 30 anos, encontramos, além dos cinco governadores, um vice-governador, dois senadores, sete deputados federais, 19 deputados estaduais, dez prefeitos e 16 vereadores. São 60 ocorrências por cargo, não necessariamente 60 pessoas diferentes, porque alguns demonstraram admirável versatilidade profissional e conseguiram ocupar vários desses cargos ao longo da carreira.
Convém registrar o óbvio: prisão não equivale a condenação. Há nesse universo prisões posteriormente revogadas, processos anulados, investigações arquivadas e absolvições. O levantamento registra quem foi preso, não quem foi definitivamente condenado.
Feita a ressalva, o número continua extraordinário. Esse número constitui um piso, não o teto. Não existe uma estatística oficial consolidada de políticos presos por cargo, e pesquisar prefeitos, vice-prefeitos e vereadores dos 92 municípios fluminenses durante três décadas é tarefa árdua.
Provavelmente a lista completa seja maior. As eleições cariocas são o coroamento da busca pelo equilíbrio entre malandros e otários. É quando o malandro passa a ser oficialmente reconhecido pelo sistema.
Primeiro vem a eleição, depois a diplomação e, a seguir, a solenidade de posse. Para uma parcela relevante dos eleitos, surge, em algum momento, uma quarta cerimônia, também acompanhada pela mídia, mas acrescida de policiais: a prisão. Trata-se de uma etapa opcional que, no Rio, vários políticos acabam por completar.
Congresso Nacional do Brasil, Brasília | Foto: Pedro Donizete Parzzanini/Shutterstock A diferença fundamental entre o malandro comum e sua versão política está no tamanho da clientela. O primeiro precisa encontrar seu próprio otário. O segundo recebe milhares ou milhões deles organizados em zonas eleitorais e conta com a vantagem adicional de poder retornar aos mesmos otários a cada quatro anos.
Isso ajuda a explicar a extraordinária capacidade de sobrevivência dos políticos cariocas. O eleitor pode descobrir que foi enganado e, ainda assim, concluir que o problema não estava no malandro escolhido, mas no malandro adversário. Troca-se o personagem, mas não o sistema.
As questões sociais e de segurança do RJ podem ser interpretadas, lato sensu , como manifestações desse desequilíbrio entre malandros e otários. Se cada esperto dispusesse de um tolo do qual pudesse obter vantagem, teríamos uma espécie de paz social. Haveria tantos aplicadores de golpes quanto vítimas disponíveis.
Oferta e demanda se encontrariam e o mercado estaria em equilíbrio. O problema aparece quando todos querem levar vantagem e ninguém aceita mais pagar a conta. O paspalho percebe que está sendo enganado, recusa-se a continuar nesse papel e reage.
O pilantra, por sua vez, descobre que há outro vigarista tentando enganá-lo. O conflito deixa de ser comercial e passa a ser físico. O Rio sempre foi um resumo qualificado do Brasil, do seu melhor e do seu pior.
Preocupa que o espírito do malandro carioca e sua necessidade de um otário disponível estejam se espalhando para outras regiões do país. Brasília é, hoje, onde esse espírito mais prospera. A malandragem, em estilo carioca, deixou de depender de praia, samba ou do sotaque chiado.
Profissionalizou-se, organizou-se em partidos, atravessou fronteiras estaduais e descobriu as vantagens incomparáveis de operar diretamente junto ao orçamento federal. Em alguns partidos, encontrou condições particularmente favoráveis à reprodução. Resta apenas uma questão de sustentabilidade.
Se para cada malandro é necessário um otário, e continuamos aumentando sistematicamente o número de malandros, haverá otários em quantidade suficiente para manter o equilíbrio social no longo prazo? Talvez não seja necessário procurar muito pela resposta, pois, de quatro em quatro anos, milhões deles comparecem espontaneamente às urnas. Este artigo foi inspirado em uma divertida conversa com o amigo Frederico Roth.
* André Burger é economista e conselheiro do Instituto Liberal O post Quando faltam otários apareceu primeiro em Revista Oeste . ]]>
Resumo publicado pelo SJX NEWS. O conteúdo integral pertence ao veículo de origem.
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