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    InvestNews·23 de out., 17:33

    R$ 585 bilhões em Tesouro Selic vencem em março de 2027: o que muda na dívida e no seu bolso

    O governo que tomar posse em janeiro de 2027 terá R$ 585 bilhões em títulos atrelados à Selic para pagar já em março, no maior vencimento da série histórica. Em setembro, vencem outros R$ 504 bilhões. Juntos, os dois pagamentos concentram 64% do R$ 1,7 trilhão que o Tesouro Nacional tem a quitar em 2027.

    São as LFTs, títulos que acompanham a taxa básica de juros e chegam à pessoa física como Tesouro Selic . A renovação dessa dívida abre uma janela para o governo reduzir a dependência dos juros flutuantes, hoje em nível recorde. O desafio para o governo federal será aproveitar a oportunidade sem contratar taxas elevadas por muitos anos nem encurtar os prazos de pagamento.

    E para quem tem Tesouro Selic? O vencimento de mais de R$ 1 trilhão não representa dinheiro novo entrando na economia nem uma migração automática para a bolsa ou o crédito privado do ponto de vista do investidor. A expectativa é que a maior parte seja reinvestida por grandes instituições.

    O efeito sobre os preços dependerá mais da estratégia de emissão do Tesouro, especialmente do volume de títulos mais sensíveis aos juros que colocará no mercado, do que do resgate das LFTs, segundo Sérgio Goldenstein, sócio-fundador da Eytse Estratégia. Ele também foi chefe do Departamento de Operações do Mercado Aberto do Banco Central, a área que faz a compra e a venda diária de títulos públicos com a finalidade de atingir os objetivos da política monetária. Para a pessoa física, a decisão é sobre onde realocar o dinheiro.

    Quem usa o Tesouro Selic como reserva de emergência ou pretende gastar os recursos no curto prazo continua precisando de liquidez e baixa oscilação, mesmo com a perspectiva de queda dos juros, destacam Fábio Murad, da Wiser Asset, e Gustavo Assis, CEO da Asset. O natural, portanto, é reinvestir em Tesouro Selic mesmo ou em outros papéis de baixo risco, como o Tesouro Reserva, que rende basicamente o mesmo, com a vantagem de permitir saques 24 horas por dia. O que esperar do Tesouro Apesar do volume elevado de títulos, Goldenstein diz não esperar grandes dificuldades do governo para refinanciar os vencimentos.

    Como esses papéis funcionam como caixa para fundos e instituições financeiras, boa parte dos recursos tende a voltar para títulos públicos. O Tesouro também não precisa captar todo o dinheiro nos próximos meses fazendo dívida nova. Goldenstein estima que o governo encerrará 2026 com um “colchão de liquidez” – ou seja, uma reserva para pagar vencimentos da dívida – bem razoável, no patamar de R$ 1,4 trilhão.

    Leia também Economia A bomba-relógio da dívida pública. E como desarmá-la Investimentos É a vez do Tesouro IPCA+? Juros em queda abrem oportunidade em títulos de longo prazo “O resgate grande de março só representará um teste de credibilidade se o futuro governo estiver enfrentando uma forte desconfiança com relação à sua política fiscal”, afirma.

    Para o consultor da Wiser Asset, a medida do sucesso estará nas condições de financiamento. ” O custo da dívida Em agosto, os títulos com taxa flutuante representavam 52,7% da dívida pública federal, o maior patamar da série histórica e próximo do limite superior de 53% previsto no Plano Anual de Financiamento. Essa dívida funciona como um financiamento com juro variável: quando a Selic sobe, a conta acompanha – algo ruim, já que torna imprevisível a evolução da dívida.

    Segundo o Santander, cada 1 ponto percentual na taxa básica altera em cerca de R$ 50 bilhões por ano os juros do estoque pós-fixado. Para diminuir essa exposição, o Tesouro pode ampliar, nos leilões ao longo do ano, a emissão de prefixados, que pagam uma taxa fixa, e NTN-Bs, que pagam a inflação mais um extra. Os recursos ajudam a quitar as LFTs que vencem, mudando aos poucos a composição da dívida.

    “É desejável um aumento da parcela prefixada na dívida, mas isso tem que ser feito com cautela”, diz Goldenstein. É que ampliar ferozmente a oferta desses papéis pode pressionar a curva de juros, encarecendo as novas emissões. Leia também Economia Queda de juros pode gerar economia de até R$ 180 bilhões na dívida pública após 2027 Investimentos Tesouro Renda+, sob os juros de hoje, transforma um Corolla numa Ferrari.

    Mas só para quem pode esperar Há ainda uma diferença de prazo. O Santander aponta que as LFTs têm sido emitidas com vencimento próximo de seis anos, contra uma média de 2,3 anos dos prefixados. A troca pode, portanto, reduzir a exposição à Selic mas obrigar o governo a voltar mais cedo ao mercado para renovar a dívida.

    Por isso, Goldenstein condiciona a melhora da composição ao avanço da agenda de reequilíbrio fiscal e à queda da Selic, que estimularia os investidores a migrar dos pós-fixados para papéis de maior risco – caso dos prefixados e das NTNBs. Murad defende aproveitar períodos de maior confiança e menor volatilidade para alongar os prazos gradualmente. ]]>

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