Rainforest Alliance Projeta 80 Mil Hectares de Café Regenerativo Certificado no Brasil Neste Ano
Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo. A Rainforest Alliance deve encerrar o primeiro ciclo de sua certificação para agricultura regenerativa no país com até 80 mil hectares e uma produção estimada em 1,6 milhão de sacas, segundo uma prévia apresentada com exclusividade à Forbes Agro por Yuri Feres, diretor da organização no Brasil. Os números finais ainda estão em processamento e deverão ser apresentados na SIC 2026 (Semana Internacional do Café), entre 11 e 13 de novembro, na ExpoMinas, em Belo Horizonte .
Até agora, o dado já confirmado pela entidade é de 50 mil hectares e 1 milhão de sacas certificados pela nova norma, dentro de um universo de 500 mil hectares vinculados à Rainforest Alliance no país. Para quem vai em buscar de produtos sustentáveis, o selo do “sapo verde” é uma referência, cuja história começou no final dos anos 1980, na Costa Rica, onde a organização iniciou seu trabalho de conservação de florestas. A espécie escolhida foi a perereca-de-olhos-vermelhos, comum na região e considerada um bioindicador, porque os anfíbios são sensíveis a mudanças na água, no solo e no ambiente ao redor.
O animal acabou virando mascote e símbolo da certificação que hoje aparece em produtos como café, cacau, chá e banana em diferentes países. RF_Divulg Selo do sapo verde que identifica a Rainforest Alliance “Possivelmente 80 mil hectares até o final do ano é a nossa expectativa quase confirmada”, diz Feres sobre a norma lançada no final de 2025 e que em 2026 entrou em seu primeiro ciclo de aplicação, aberto aos produtores brasileiros. A previsão inicial da organização era chegar aos 50 mil hectares, dado já confirmado, mas a adesão avançou além desse patamar enquanto a safra ainda era encerrada.
“A gente não achou que o produtor brasileiro iria com tanta sede ao pote”, comemora Feres. O novo padrão parte de um conceito que o executivo procura separar do uso amplo que o termo regenerativo ganhou no mercado de alimentos. “A agricultura regenerativa são práticas voltadas à saúde e à qualidade do solo.
É muito clara a definição”, diz ele. No modelo da organização, o solo funciona como ponto de partida para práticas relacionadas à cobertura vegetal, nutrientes, biologia, disponibilidade de água, biodiversidade e capacidade produtiva da lavoura. A norma adiciona requisitos ao padrão de agricultura sustentável que a Rainforest Alliance já utiliza em sua certificação.
No mundo, cerca de 2 milhões de hectares de café estavam certificados em 2025 pelo padrão de agricultura sustentável da Rainforest Alliance, distribuídos por 33 países e envolvendo cerca de 2 milhões de produtores e trabalhadores rurais, segundo a organização. Vale destacar que esses dois universos não devem ser confundidos: o dado internacional se refere ao padrão de agricultura sustentável, enquanto os 50 mil hectares confirmados e os até 80 mil previstos no país pertencem à nova certificação regenerativa. Um ano de adesão regenerativa A expansão da oferta encontrou compradores antes mesmo do fechamento do primeiro ciclo.
A Rainforest Alliance trabalhou paralelamente com empresas que compram e vendem o grão, principalmente nos mercados europeu e americano, para formar uma cadeia comercial para o produto. “Já nessa primeira safra temos quase que uma falta de café regenerativo por conta da demanda”, diz Feres. Segundo ele, há compradores europeus procurando o produto e marcas preparando lançamentos identificados com o selo regenerativo, embora parte dos nomes esteja protegida por acordos de confidencialidade.
“O produtor só faz certificação se tiver um mercado”, afirma Feres. Para ele, a demanda pela certificação também tem base porque ela passou a ser usada por produtores como instrumento de gestão da propriedade, com rotinas de monitoramento e exigências verificadas em auditoria, mas a existência de compradores continua determinante para ampliar a área. A norma estabelece os critérios que o produtor precisa cumprir para receber a certificação, incluindo parâmetros de manejo e acompanhamento da produção.
Esse movimento comercial é diferente de um segundo trabalho que a Rainforest Alliance mantém no Cerrado Mineiro e que antecedeu a aplicação da norma. Em parceria com a IKEA, a organização acompanha 11 cafeicultores para colocar práticas regenerativas no campo, medir seus efeitos e identificar o custo e o resultado de cada intervenção ao longo de três anos. O projeto reúne 2,5 mil hectares de café e dispõe de 500 mil euros no período (R$ 2,9 milhões na cotação atual).
A IKEA é uma empresa sueca de varejo fundada em 1943 e presença em 63 mercados no mundo, e que também é uma compradora importante de café para suas lojas e operações de alimentação. Ikea_DIvulg Café da Ikea vendido na Bélgica com selo Rainforest “Estamos financiando coisas que o produtor também não financiaria. Por exemplo, o monitoramento completo de todas as propriedades”, diz Feres.
Uma equipe acompanha água, temperatura e qualidade do solo, além de análises que incluem componentes biológicos e carbono. O projeto também financia sementes, equipamentos e intervenções de manejo, chegando em algumas propriedades às estruturas para produção de biológicos e criação de inimigos naturais dentro da fazenda. O objetivo é entender o comportamento dessas práticas para além do cumprimento dos requisitos da certificação.
Quando o projeto começou, conta Feres, uma das premissas colocadas à mesa era que a agricultura regenerativa poderia aumentar o custo e reduzir a produtividade, compensando essas perdas com maior resiliência da lavoura . Os dados coletados até agora no grupo brasileiro caminham em outra direção, embora a Rainforest Alliance ainda esteja processando os percentuais que serão apresentados ao final da safra. “Conseguimos ver claramente uma redução de custo de produção”, diz Feres.
Segundo ele, a maior parte desse movimento está associada à menor utilização de defensivos e agroquímicos nas propriedades acompanhadas. “A maior parte da redução do custo está aí. ” Os dados estão sendo consolidados.
O acompanhamento separou os produtores conforme o estágio de adoção das práticas e encontrou diferenças de rendimento entre esses grupos. Feres cita propriedades em estágio inicial na faixa de 30 sacas por hectare, um conjunto intermediário em torno de 40 sacas e produtores mais avançados chegando a cerca de 60 sacas por hectare. Parte dos participantes já mantinha registros antes do início do projeto, o que permite comparar séries anteriores com o período monitorado pela Rainforest Alliance.
“Para nós já não é mais dúvida de que a agricultura regenerativa leva a uma maior produtividade natural”, afirma Feres. A declaração vem acompanhada de uma ressalva operacional. ” Segundo ele, avançar no modelo exige investimento em monitoramento, análises de solo e uma gestão com mais variáveis do que a rotina convencional.
” Essa complexidade aparece na escolha das plantas usadas para cobertura do solo, por exemplo. O trabalho avalia quais espécies cumprem melhor funções como fixação, polinização ou atração de inimigos naturais, em vez de tratar a cobertura apenas como proteção física. Em algumas propriedades, a Rainforest Alliance chegou à instalação de estruturas para multiplicação de organismos utilizados no controle biológico.
A proposta é montar, ao longo dos três anos, um conjunto de práticas e isolar quanto cada uma custa e qual resultado entrega. A experiência com os 11 do projeto com a IKEA funciona como um campo de medição mais detalhado, no qual a organização acompanha tecnologias que podem ir além do que é exigido para receber o selo. “Esse projeto é um subgrupo de produtores que está disposto a estudar até onde a gente pode ir”, diz Feres.
A Rainforest Alliance já trabalha com a ampliação desse grupo. “Agora estamos brigando pela segunda fase”, diz Feres. A intenção é manter os participantes atuais e adicionar propriedades, enquanto a primeira sequência de dados passa pelo processamento e os novos financiamentos ainda estão nos termos de confidencialidade.
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