Renata Queiroz e Fernanda Ingletto Lançam Linha de Jogos Artsy
Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo. O tabuleiro de xadrez, o baralho, o dado e tantos outros itens do universo do jogo de mesa têm um forte apelo estético. Não à toa, artistas como Man Ray e Alexander Calder fizeram interpretações artísticas de jogos como o xadrez, em que exaltam a forma sem deixar de lado a função.
Foi pensando nesse tipo de abordagem que as amigas Renata Queiroz, curadora da CJ Fashion, e Fernanda Ingletto, fundadora da 2Artlovers, plataforma de art advising dedicada à arte contemporânea, criaram o projeto The Art of Play. Para a primeira temporada de lançamento, a dupla convidou Luca Benites para criar um tabuleiro de xadrez. O artista e arquiteto usou o mármore como base e criou as peças usando metal banhado em ouro branco e amarelo.
De formas abstratas, as peças do jogo formam um conjunto de pequenas esculturas. “O projeto nasce da nossa vontade de aproximar a arte de momentos do cotidiano. A ideia é que cada temporada explore um jogo diferente, sempre com a participação de um artista convidado, que vai interpretar um universo tão familiar de maneira completamente nova – imaginar isso é uma das partes mais gostosas desse projeto”, explica Renata em entrevista à coluna.
“Gostamos da ideia de um objeto que pode ser admirado como uma escultura, mas que também convida à interação”, completa ela, que é fã de tranca. “Confesso que também tenho um lado competitivo”. O lançamento das 20 peças, assinadas e numeradas, acontece no dia 4 de novembro na CJ Fashion, a multimarcas do shopping Cidade Jardim, em São Paulo.
Antes disso, a peça criada por Benites integrou a exposição “Reflexos”, na Galapagos Art Center, com texto curatorial de Marcello Dantas. “Se a arte é design sem função, o design é arte com função. O tabuleiro de xadrez é o território onde ambos se enfrentam – e se fundem – num eterno xeque-mate entre uso e poesia”, escreve ele.
A seguir, Luca Benites fala à coluna sobre o projeto The Art of Play. Como você chegou às formas que representam as peças no xadrez? O ponto de partida foi revisitar minhas criações ao longo de 25 anos de carreira.
Sempre me interessaram as relações entre geometria, equilíbrio, movimento e tempo. Entendi que a geometria das esculturas deveria estabelecer uma relação direta com a estética e a estrutura do próprio tabuleiro. Busquei formas escultóricas focando na síntese e na abstração, um dos elementos centrais do meu trabalho.
O cavalo, por exemplo, nasce da síntese de duas formas triangulares, cuja origem está no perfil do próprio animal. Com a torre, segui um raciocínio semelhante. Como foi o processo de escolha dos materiais e cores?
Trabalho predominantemente com metais como aço, alumínio, latão, aço corten e aço inoxidável. Desde o início, imaginei combinar os processos de fundição e usinagem para alcançar formas precisas com acabamento refinado. Procurei criar contrastes sem perder a unidade visual do conjunto – a escolha do ouro amarelo e do ouro branco responde justamente a essa intenção.
São tonalidades que dialogam por meio da luz e do brilho, mas preservam suas identidades. Uma dualidade que também está presente na essência do jogo. De que maneira uma peça dessa pode impactar o ambiente?
As peças despertam interesse por suas formas, proporções e reflexos, criando uma presença escultórica que convida à contemplação. Sempre pensei nessas peças como esculturas em pequena escala, que, reunidas sobre o tabuleiro, estabelecem relações entre si e com o espaço ao redor. Há também uma dimensão simbólica importante.
O xadrez nos coloca diante de questões universais, como estratégia, escolhas e consequências. Mas, acima de tudo, nos coloca diante do “tempo”, conceito central da minha pesquisa artística. Gosto de pensar que essa obra, de alguma maneira, nos convida a interromper o ritmo cotidiano.
A fazer uma pausa. A observar, refletir e, eventualmente, jogar. Você joga xadrez?
E outros jogos de tabuleiro? Joguei bastante xadrez durante a infância e a adolescência e sempre gostei de jogos de mesa, como cartas, gamão e damas. Com o passar dos anos, a intensidade do cotidiano acabou reduzindo esses momentos de jogo.
Curiosamente, o próprio projeto me fez refletir sobre essa questão. Vivemos em um ritmo que muitas vezes nos impede de parar, e o xadrez exige justamente o contrário: atenção, concentração e tempo. Talvez essa seja uma das coisas mais interessantes dessa experiência: criar uma obra que, além de ser contemplada, também me convide a desacelerar e voltar a jogar, ainda mais tendo o prazer de assinar o tabuleiro.
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