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    InvestNews·01 de nov., 14:42

    Sell-off no Brasil faz crescer o receio de investidores com outros emergentes

    A forte queda das ações e dos títulos públicos no Brasil deu um recado duro aos investidores de países emergentes: operações com muita gente do mesmo lado podem se desfazer com uma rapidez assustadora. Apostas populares, que vão de ações asiáticas ligadas à inteligência artificial ao rand sul-africano, passaram a ser vistas com mais cautela depois que a surpresa eleitoral derrubou as ações brasileiras e o real. O episódio mostrou como um posicionamento unilateral pode amplificar reversões de mercado.

    A Allspring Global Investments vê ações de IA como vulneráveis a uma decepção com o IPO da Anthropic, enquanto a Invesco teme os riscos ligados aos investimentos das hyperscalers em IA. O Societe Generale chama atenção para o crédito emergente, por causa dos spreads apertados, e o Citigroup aponta posições concentradas dos investidores em juros e no florim húngaros, além de dívida de países de fronteira em moeda local. “Um Fed mais duro ou uma escalada relevante dos conflitos geopolíticos pode pressionar posições em emergentes que têm sido as favoritas dos investidores”, disse Brendan McKenna, estrategista de mercados emergentes do Societe Generale em Nova York.

    Leia também Investimentos Ibovespa afunda 18% e tem pior semana desde 2020; dólar salta 9% Sinais de posicionamento esticado aparecem em vários mercados. A posição líquida comprada dos fundos alavancados no rand sul-africano está perto da máxima em dois anos, e a fatia de estrangeiros na dívida húngara chegou a um recorde. Uma pesquisa do Bank of America no mês passado apontou as ações globais de semicondutores como a operação mais lotada do mercado.

    O real teve na segunda-feira o pior dia desde 1999, e a Bolsa brasileira teve as negociações interrompidas poucos minutos depois da abertura. O principal índice fechou com queda de quase 14%, e algumas ações perderam mais de 50%. O motivo foi a reeleição inesperada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que virou de ponta-cabeça um mercado posicionado, em sua maioria, para a vitória do candidato de direita Flávio Bolsonaro.

    Antes do resultado, o real era a segunda moeda emergente de melhor desempenho no ano, atrás apenas do peso colombiano. Os juros altos do Brasil atraíam capital estrangeiro em busca de retorno, e a alta das commodities dava um reforço adicional. “Isso é uma evidência do tamanho do estrago que estamos vendo com a reeleição surpreendente de Lula”, disse Julio Callegari, diretor de investimentos (CIO) de renda fixa na Ásia da JPMorgan Asset Management, em entrevista em Singapura na terça-feira.

    “É um grande choque de Value-at-Risk, certo? ” “Espremidos” nas mesmas operações McKenna, do SocGen, citou o crédito como uma das operações mais lotadas. “Os spreads estão muito apertados”, disse, sobretudo diante de inflação elevada, aperto monetário dos bancos centrais e incerteza geopolítica.

    O prêmio de rendimento do índice de títulos soberanos emergentes da Bloomberg sobre os Treasuries comparáveis caiu para 210 pontos-base, mais de 100 pontos abaixo da média de cinco anos, de 315. A turbulência no Brasil também chamou a atenção para a Hungria, um dos destaques entre os emergentes neste ano. Os ativos locais subiram com a troca de governo, que alimentou a expectativa de avanços rumo à adoção do euro.

    A participação de estrangeiros em títulos e letras do Tesouro húngaro atingiu um recorde de 11,1 trilhões de florins (US$ 34 bilhões) no mês passado, sinal de como os investidores se amontoaram nessa dívida. Da mesma forma, fundos alavancados e gestoras de ativos têm cerca de US$ 688 milhões em posições líquidas compradas no rand sul-africano, perto do maior nível desde o fim de 2024, segundo dados da Commodity Futures Trading Commission (CFTC) compilados pela Bloomberg. O rand tem sido um dos carry trades mais populares do ano, estratégia que consiste em tomar dinheiro emprestado em uma moeda de juros baixos para investir em ativos de maior rendimento.

    “Com o aumento da volatilidade dos ativos de risco (especialmente em juros), os investidores foram espremidos em poucas operações parecidas”, escreveram estrategistas do Citi em relatório recente. “Se alguma dessas operações idiossincráticas residuais decepcionar, podemos ver uma aceleração dessa tendência de tirar risco da mesa”, acrescentaram. Nos mercados de fronteira, as operações preferidas dos fundos também estão sob escrutínio.

    Carol Lye, gestora da Brandywine Global Investment Management em Singapura, apontou o posicionamento lotado em letras de curto prazo em moeda local de países de fronteira como Egito, Turquia, Nigéria e Cazaquistão. Se os juros globais subirem muito mais, ou se as bolsas começarem a cair, haverá “muito dinheiro de rotação saindo dessas operações”, disse. Um indicador do JPMorgan que acompanha o desempenho da dívida emitida por países de fronteira corrigiu cerca de 3% desde a máxima histórica, no início de setembro.

    É verdade que turbulência política e reversões bruscas de mercado são riscos conhecidos de quem investe em emergentes. E, apesar das preocupações com o posicionamento lotado, muitas das operações populares deste ano continuam amparadas por fatores como rendimentos atraentes e balanços corporativos fortes. Enquanto isso, uma operação lotada em emergentes que já começou a mostrar rachaduras é a das ações asiáticas ligadas à IA.

    As ações de tecnologia caíram depois que os resultados de algumas gigantes americanas decepcionaram e cresceram as dúvidas sobre se os gastos maciços com IA vão se traduzir em lucros sustentáveis. “Os investimentos das hyperscalers em IA continuam sendo um indicador-chave a acompanhar”, disse William Yuen, diretor de investimentos da Invesco. ” Um indicador da Bloomberg das ações de semicondutores da região, que estão no centro da cadeia de hardware de IA, acumula queda de quase 25% desde o pico de junho.

    “Dentro das ações emergentes, as ligadas à IA e o fator momentum continuam sendo operações relativamente lotadas”, disse Gary Tan, gestor de portfólio da Allspring Global. ” ]]>

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