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    Setor de gás vê espaço para estocagem e 1º projeto ganha corpo para 2027
    Poder360·27 de set., 14:00

    Setor de gás vê espaço para estocagem e 1º projeto ganha corpo para 2027

    A Origem Energia espera conseguir até o fim de 2026 o licenciamento ambiental que viabiliza o seu projeto de estocagem no Polo de Pilar, em Alagoas. Será o 1º empreendimento dessa natureza no Brasil. O piloto da companhia usará 4 reservatórios já considerados obsoletos para a produção –ou depletados, no jargão do setor.

    A companhia já recebeu um aval da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis) em dezembro de 2025. O órgão precisou adotar uma regulamentação experimental, já que não há no país um projeto similar em atividade. Com a aprovação do piloto, a Origem Energia tratou de adequar os reservatórios comprados da Petrobras em 2021 em uma área que ainda mantém outros reservatórios produtivos.

    A Origem afirma ter investido cerca de R$ 100 milhões na adaptação da infraestrutura para a fase inicial. A companhia estima mais US$ 200 milhões em investimentos até uma etapa mais madura do empreendimento. O piloto deve atingir sua capacidade plena até o fim de 2028, com a expansão começando a operar a partir de 2029 e podendo avançar de 2030 a 2032.

    A escala pode crescer conforme a demanda. Há cerca de 500 zonas já declaradas depletadas na área com potencial para serem avaliadas para estocagem. Boa parte da estrutura necessária já existia porque a Petrobras fazia reinjeção de gás no local, o que permitiu à Origem reaproveitar poços, compressores e linhas depois de adaptações.

    A implementação do projeto está a cargo do diretor de estocagem da companhia, Anderson Bastos. É um homem grisalho com mais de 30 anos de experiência. Entrou na Origem no ano passado com a missão de tocar o projeto e fala com entusiasmo sobre o que está fazendo.

    Para ele, a estocagem é quase como um efeito natural do momento do mercado de gás natural no Brasil. Uma solução para um mercado em expansão, com novos agentes e necessidade de “ lastro ”. “A gente está pegando uma operação que existia, está ressignificando e abrindo o mercado a terceiros.

    e, evento de energia realizado no Rio de Janeiro. e GÁS EM EXPANSÃO O que Bastos chama de “ lastro ” é uma garantia física de que um agente terá gás disponível quando precisar cumprir uma operação, mesmo que oferta e demanda não coincidam exatamente naquele momento. A estocagem permite guardar o gás quando a oferta é superior à demanda e devolvê-lo ao sistema quando o consumo aumenta.

    Isso, afirma o diretor da Origem, dá aos comercializadores margem para assumir posições sem depender de que produção e consumo estejam perfeitamente casados a cada instante. “Não tem como ter um mercado líquido, um mercado competitivo, sem lastro, sem estocagem” , disse. Essa necessidade aumenta conforme o mercado deixa de ser concentrado em poucos agentes.

    O mercado de gás natural está neste momento passando por um processo de abertura, que ganhou tração com a aprovação da Nova Lei do Gás em 2021. Antes, com a Petrobras concentrando grande parte da produção e do atendimento à demanda, a própria companhia tinha instrumentos para ajustar oferta e consumo sem precisar de armazenamento subterrâneo. Os novos agentes têm um portfólio menos diverso ao seu dispor.

    Quando não há demanda para o gás produzido, parte dele pode ser reinjetada nos reservatórios. No movimento contrário, quando há um pico de consumo, é preciso encontrar rapidamente uma fonte adicional de oferta. Esses picos estão ligados principalmente ao acionamento das usinas termelétricas, cuja demanda por gás varia conforme as condições do sistema elétrico –como a disponibilidade de geração hidrelétrica e de outras fontes renováveis.

    Hoje, uma das principais alternativas para atender a essas oscilações são os terminais de GNL (gás natural liquefeito), que mantêm capacidade disponível para importar gás liquefeito em barris e regaseificar o combustível quando necessário. A ideia da Origem é que a estocagem acrescente uma nova opção de flexibilidade. “ A estocagem tem essa beleza, que ela pega esse poço que ia ser abandonado, a gente ressignifica, passa a funcionar como um armazém para 3º essa atividade ali ”, disse o diretor.

    Bastos cita como exemplo episódios de desbalanceamento na malha de transporte. Como o gás natural também é um subproduto da produção de petróleo, a continuidade da extração de óleo exige que parte do gás seja direcionado para algum lugar. Muita reinjeção pode comprometer a produtividade de um campo, enquanto a queima à revelia do gás é proibida por questões ambientais.

    Em alguns casos de baixa demanda industrial e termelétrica, o gás fica aprisionado nas estruturas de transporte. Para descongestionar, as empresas responsáveis pela infraestrutura precisam fazer uma venda forçada por um preço geralmente abaixo da média. “Para se ter uma ideia, o preço médio do gás no Brasil hoje é de US$ 8 por milhão de BTU, e o leilão tem um limite de US$ 2,50 por milhão de BTU ”, afirmou.

    TECNOLOGIA CONHECIDA A estocagem subterrânea de gás natural não é uma tecnologia nova. Os primeiros projetos começaram a ser implementados nos Estados Unidos no início do século 20 e a atividade se consolidou sobretudo em mercados com forte oscilação sazonal de consumo. É o caso da Europa e de outras regiões do Hemisfério Norte, onde a demanda sobe no inverno por causa do uso do gás para aquecimento.

    Nesses mercados, parte do gás é armazenada gradualmente durante os meses de menor consumo para formar estoques antes da chegada do frio. Em alguns países, há inclusive obrigações regulatórias para que comercializadores mantenham volumes armazenados para o inverno. Segundo a sócia-diretora da Prysma E&T Consultores e ex-diretora executiva de gás natural do IBP (Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis), Sylvie D’Apote, há 3 principais estruturas geológicas usadas para a estocagem subterrânea: reservatórios depletados de petróleo ou gás, aquíferos e cavernas de sal.

    Cada uma oferece combinações diferentes de capacidade e velocidade de injeção e retirada. Reservatórios depletados costumam comportar volumes maiores, mas operam com ciclos mais lentos; cavernas de sal tendem a armazenar menos, mas permitem colocar e retirar gás mais rapidamente. Essa diferença define também a função econômica do empreendimento.

    Em um mercado sazonal, um reservatório de grande capacidade pode ser preenchido aos poucos durante o verão e esvaziado gradualmente no inverno. Já uma estrutura com alta velocidade de injeção e retirada pode ser usada para operações de prazo mais curto, como comprar um volume que ficou temporariamente barato, armazená-lo e revendê-lo poucos dias depois. “As estocagens não são todas iguais” , disse D’Apote.

    MODULARIDADE O caso da Origem, ela explica, tem uma vantagem adicional: a modularidade. Em vez de depender da conversão de um único grande campo, a empresa tem diversos reservatórios menores e pode incorporar novas estruturas aos poucos. Segundo D’Apote, isso permite começar com 1, 2 ou 4 reservatórios e ampliar o negócio conforme a resposta do mercado, reduzindo o capital e o risco da etapa inicial.

    “É como se fosse um projeto modular” , afirmou. Também ajuda o fato de os reservatórios já terem produzido hidrocarbonetos. Um campo depletado já demonstrou capacidade de reter gás no subsolo e normalmente dispõe de parte da infraestrutura, como poços e gasodutos.

    Isso reduz o investimento em comparação com alternativas como uma nova caverna de sal. Ainda assim, D’Apote ressalva que não se trata de uma operação simples nem barata. Além das adaptações de engenharia, é preciso considerar o chamado cushion gas –ou gás de base–, volume que permanece no reservatório para manter a pressão necessária à operação e que representa capital imobilizado.

    O modelo de negócio também não exige que a empresa de estocagem seja dona do gás. Nos mercados mais maduros, o mais comum é o proprietário da infraestrutura vender capacidade de armazenamento como um serviço. O cliente continua dono da molécula e decide quando injetá-la ou retirá-la.

    No Brasil, não há hoje uma separação obrigatória entre essas atividades, o que permite à Origem usar parte da estrutura para seu próprio gás e, ao mesmo tempo, vender capacidade a terceiros. No piloto, a Origem projeta negociar bilateralmente a capacidade com os interessados, respeitando regras de transparência e tratamento isonômico definidas pela ANP. Com o amadurecimento do mercado, Bastos diz que o modelo poderá evoluir para chamadas públicas periódicas, as chamadas open seasons , nas quais empresas disputariam capacidade de armazenamento.

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    Resumo publicado pelo SJX NEWS. O conteúdo integral pertence ao veículo de origem.

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