Seu filho parou de ir ao médico? Adolescência também exige cuidado
Durante a infância, o acompanhamento médico faz parte da rotina das famílias. Com uma certa frequência, a criança vai ao pediatra, que mede peso e estatura, verifica a vacinação e discute aspectos importantes sobre desenvolvimento, alimentação, sono e ambiente. Então chega a adolescência.
O(a) filho(a) cresce, parece saudável e já não adoece com tanta frequência . Aos poucos, as consultas desaparecem. Nesse momento pode surgir um vazio no cuidado .
A adolescência não é apenas uma transição entre a pediatria e a medicina de adultos . É uma fase marcada por crescimento, puberdade, mudanças cerebrais e hormonais, construção da identidade, ganho progressivo de autonomia e de novos comportamentos. Muitas questões de saúde também começam ou ganham importância nesse período, mesmo quando não existe uma queixa ou um sintoma que motive o agendamento de consulta médica.
Por isso, o Dia Nacional da Saúde de Adolescentes e Jovens é uma oportunidade de refletirmos sobre uma pergunta simples: depois que seu filho deixou de ser criança, quem passou a acompanhar a saúde dele? Leia Mais Tudo o que sabemos sobre mulher de 37 anos que fingia ser adolescente Mulher que fingia ser adolescente pediu Pix à família em nome de terceiros Medicina Segura: CRM lança canal para denúncia de procedimentos irregulares Uma consulta que vai muito além de peso e altura A hebiatria é a área da medicina dedicada à saúde do adolescente. As consultas são um espaço para conversar sobre sono, alimentação, atividade física , vacinação, escola, relacionamentos, sexualidade, saúde mental, uso de álcool, cigarro, vape e outras substâncias, entre muitos outros assuntos de relação direta com a saúde.
O exame físico, que inclui peso, estatura, pressão arterial e avaliação da puberdade, traz também informações cruciais para a compreensão da condição de saúde do adolescente. Ansiedade na infância: especialistas explicam indícios do transtorno em crianças | SINAIS VITAIS Alguns problemas que terão repercussões na vida adulta podem começar nessa fase. Excesso de peso , hipertensão e alterações metabólicas podem aparecer ainda na adolescência.
Transtornos alimentares, ansiedade, depressão e outros sofrimentos psíquicos também podem se manifestar nesse período. Nem sempre haverá sintomas evidentes, e nem sempre o adolescente contará espontaneamente aos pais o que está acontecendo. Mudanças de comportamento, sono, alimentação, desempenho escolar e relações sociais podem trazer informações importantes, mas não substituem um espaço no qual o jovem possa falar diretamente, de preferência na ausência dos pais, sobre a própria saúde.
A consulta preventiva também permite conferir a vacinação. Na adolescência e xistem imunizações e doses que precisam ser completadas ou atualizadas , e é comum encontrar jovens com vacinas atrasadas. Por que o médico pode pedir para conversar sem os pais?
Esse é um ponto que ainda causa estranhamento em algumas famílias. Em determinado momento da consulta, o médico pode pedir para conversar sozinho com o adolescente. Isso não significa afastar os pais do cuidado.
Ao contrário, a participação da família continua sendo importante e deve ser estimulada. Mas o adolescente está construindo autonomia e precisa começar a desenvolver uma relação própria com sua saúde. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que o jovem tenha espaço de privacidade e confidencialidade na consulta.
Quando possui capacidade de discernimento, o adolescente tem direito ao sigilo das informações, inclusive em relação aos responsáveis, respeitadas as situações em que existe risco relevante para ele ou para outras pessoas. Na prática, essa confiança permite conversar com mais liberdade sobre temas que dificilmente surgiriam com os pais na sala: início da vida sexual, orientação sobre contracepção e prevenção de infecções sexualmente transmissíveis, uso de substâncias, conflitos familiares, bullying, dúvidas sobre o próprio corpo ou sofrimento emocional. O adolescente também precisa saber desde o início que o sigilo tem limites.
Situações de violência, risco de suicídio ou outras circunstâncias capazes de colocar sua integridade (ou a de outros indivíduos) em perigo podem exigir a participação dos responsáveis e outras medidas de proteção. O objetivo não é criar segredos entre médico, adolescente e família, mas construir um ambiente em que o(a) jovem se sinta seguro para falar a verdade. Sem confiança, justamente as informações mais importantes podem não chegar ao profissional.
Aprender a cuidar da própria saúde também faz parte de crescer Existe outra função desse acompanhamento que costuma receber menos atenção. Durante a infância, os pais marcam a consulta, explicam os sintomas, conhecem as vacinas e controlam os medicamentos. Na vida adulta, espera-se que cada pessoa assuma essas responsabilidades.
Essa passagem não acontece de um dia para o outro. A adolescência é o momento de começar a aprender a relatar sintomas, conhecer antecedentes familiares, entender por que toma determinado medicamento, saber quais vacinas recebeu, fazer perguntas ao médico e participar das decisões sobre a própria saúde. A família continua sendo uma rede de proteção, mas progressivamente deixa de falar pelo(a) filho(a) para ajudá-lo(a) a falar por si mesmo.
Isso também pode ter repercussões no futuro. Um jovem que aprende que consulta médica não serve apenas para tratar doença tende a compreender melhor conceitos de prevenção, autocuidado e acompanhamento de saúde quando chegar à vida adulta. Não é necessário transformar todo adolescente saudável em paciente frequente nem pedir exames sem indicação.
O acompanhamento deve considerar idade, fase do desenvolvimento, condições clínicas e fatores individuais de risco. O que não faz sentido é imaginar que, depois das consultas regulares da infância, exista um período de vários anos em que o jovem só precise procurar atendimento quando existe alguma queixa física. A adolescência parece, muitas vezes, uma fase de enorme vitalidade.
E geralmente é. Mas saúde não significa apenas ausência de sintomas. Entre o pediatra da infância e o médico da vida adulta existe uma etapa inteira de desenvolvimento que também precisa ser acompanhada.
*Texto escrito por Dr. Alberto Helito (CRM 144219 | RQE 141336), Hebiatra ]]>
Resumo publicado pelo SJX NEWS. O conteúdo integral pertence ao veículo de origem.
Leia a matéria completa em CNN Brasil →
