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    Sheikha Al Mayassa: a Mulher Que Fez da Cultura uma Estratégia de Poder para o Catar
    Forbes Brasil·22 de set., 08:32

    Sheikha Al Mayassa: a Mulher Que Fez da Cultura uma Estratégia de Poder para o Catar

    Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo. Sheikha Al Mayassa bint Hamad bin Khalifa Al Thani ocupa uma posição singular no mundo da arte. Filha do ex-emir do Catar e irmã do atual chefe de Estado, ela está há mais de duas décadas à frente da ambiciosa transformação cultural de um dos países mais ricos do planeta.

    Sob sua liderança, Doha ganhou museus assinados por nomes como I. M. Pei e Jean Nouvel, ampliou suas coleções e criou uma estrutura de incentivo que passa pelas artes plásticas, cinema, moda e design.

    Sua formação ajuda a entender a dimensão que esse projeto ganhou. Al Mayassa estudou ciência política e literatura e entrou na universidade imaginando tornar-se diplomata. Quando assumiu o projeto do Museu de Arte Islâmica, percebeu que precisava compreender também o impacto das instituições culturais sobre as cidades e a sociedade.

    Para isso, voltou a Nova York para fazer um mestrado na Columbia University, com foco em política e planejamento urbano. Al Mayassa acabou encontrando na cultura outra maneira de exercer a diplomacia. “Ela traz uma dimensão que a política não traz”, diz à Forbes Brasil.

    A intersecção entre os dois temas atravessa sua trajetória. Al Mayassa afirma que o investimento cultural do Catar não nasceu para criar uma nova imagem do país ou atrair turistas, mas como parte de um projeto de desenvolvimento humano e de construção de uma sociedade baseada no conhecimento. Ao mesmo tempo, define a diplomacia como o coração da estratégia que ajudou a construir.

    A sheikha esteve no Brasil a convite de Alex Allard, empresário francês criador do Mata São Paulo, com quem articula um projeto similar em Doha, o Al Maha. Ela também aproveitou para conhecer lideranças criativas e visitou Inhotim, em Brumadinho, Minas Gerais. Divulgação Sheikha Al Mayassa e Alexandre Allard Em conversa com a Forbes Brasil , ela falou sobre a influência dos pais, os primeiros anos à frente do Qatar Museums, a representação do mundo árabe pelo olhar ocidental e a relação, para ela indissociável, entre arte e política.

    Forbes Brasil: Quando você foi tocada pela primeira vez por um obra de arte? Sheikha Al Mayassa: É difícil lembrar a primeira vez porque crescemos cercados de cultura, história e arqueologia. Meus pais amam as artes e nos educaram nesse universo de literatura, cinema, teatro ou música.

    Sinto que isso estava realmente enraizado na nossa família, mas também no panorama mais amplo do próprio país. Temos muito talento, criatividade, artesanato e design. FB: E existe alguma obra de arte na sua casa pela qual você tenha um carinho especial?

    SM: Tínhamos muitas pinturas orientalistas, com as quais agora estamos trabalhando em um projeto muito importante no Museu de Lusail, onde temos uma das maiores coleções de pinturas orientalistas. É um diálogo entre Oriente e Ocidente e sobre o que isso significa. Sobre como nossa região e nossa comunidade se reconciliam com seu passado pós-colonial.

    Houve muitos conflitos na nossa região como resultado da falta de integração pós-colonial, em termos de como os países foram divididos e as famílias foram separadas. Então sou muito ligada a esse período orientalista da pintura e da fotografia. Para o Ocidente, ele é exótico.

    Para nós, a questão é: quão precisas são essas imagens de nós? FB: Você está à frente de outros projetos que cuidam de resgate cultural. Quais são eles?

    SM: Criamos o Instituto de Cinema. Ele tem 16 anos, já apoiou muitos cineastas da nossa região e, de forma mais ampla, do mundo árabe, Sudeste Asiático, África e do Sul Global, lugares onde não existe uma indústria cinematográfica. A ideia era que finalmente pudéssemos contar nossas histórias, com nossas próprias vozes.

    Muitos filmes anteriores foram feitos por não árabes sobre árabes, e eles não tinham ideia de como falamos ou como nos vestimos. Então tentamos capacitar talentos e ajudá-los a pesquisar suas próprias histórias, sua cultura, suas civilizações e como manter seu patrimônio protegido, ao mesmo tempo em que se adaptam a uma nova maneira de viver. Hoje as sociedades mudaram, e a questão é como se adaptar sem perder o sentido de quem você é, além de ter orgulho da sua história e da sua cultura e não sentir que a cultura de ninguém é melhor do que a sua.

    FB: Quando você começou esse trabalho, há 20 anos, foi uma iniciativa sua ou uma responsabilidade dada pela sua família? SM: É uma pergunta interessante. Quando estava na universidade, fui para os Estados Unidos, e o 11 de Setembro aconteceu talvez duas ou três semanas depois que cheguei.

    Então decidi fazer várias disciplinas de literatura sobre civilização e religião islâmicas, porque sabia que o que estava sendo dito sobre nós não era verdade e queria estudar e pesquisar mais sobre isso. Encontrei um livro chamado Leão Africano , de Amin Maalouf, um árabe cristão libanês que deixou o Líbano depois da guerra civil e vive em Paris. Ele escreveu muitos livros sobre esse tema.

    Li o livro e tinha certeza de que deveria haver um filme sobre ele, porque é uma história muito visual e muito importante. Ele falava sobre tolerância e respeito durante a civilização islâmica. Se você observar o Império Otomano, em todas as cidades havia sempre três templos religiosos: a igreja, a mesquita e a sinagoga coexistindo.

    Isso fazia parte da nossa civilização islâmica. Quando descobri que não havia filme, quis transformar esse livro em um filme. Apresentei isso como minha tese de conclusão de curso, na formatura, diante dos meus pais.

    Acho que meu pai sempre percebeu que eu tinha interesse artístico, embora eu tivesse entrado na universidade dizendo que queria ser a primeira mulher ministra das Relações Exteriores do meu país. Eu queria ser diplomata de carreira. Quando voltei, comecei a trabalhar no escritório do meu pai e também no escritório do ministro das Relações Exteriores.

    Viajávamos muito, e havia um Museu de Arte Islâmica que deveríamos inaugurar e que enfrentava alguns desafios internos. ” Então eu estava no lugar certo, na hora certa, para lidar com esse projeto. Rapidamente percebi como era importante a visão dele e que, para cumpri-la, precisava dedicar tempo de verdade ao desenvolvimento de uma estratégia, trabalhando com arquitetos, museografia e a coleção.

    Eu não tinha formação para isso, então voltei para Nova York e fiz meu mestrado na Columbia, com foco em política urbana e planejamento urbano, pensando no que as instituições culturais podem fazer dentro de um contexto socioeconômico e no impacto ao redor de um projeto, não apenas no projeto isolado. Não foi minha ideia nem meu projeto. Eu era, diria, uma servidora pública a quem foi dada uma responsabilidade.

    Depois fui ao meu pai e disse: “Isso é muito importante. ” FB: Você acha que arte e política podem ser separadas? SM: Não.

    Por isso eu amava visitar culturas e conhecer a história das civilizações. Era também por isso que eu queria trabalhar com diplomacia: como podemos nos aproximar por meio do diálogo, da troca e da compreensão mútua? Essa era realmente a identidade do meu país e da minha família.

    Éramos um país pequeno, mas tentávamos unir as pessoas, ajudar em negociações e mediações pela paz, pela paz mundial e pela coexistência por meio do diálogo e do respeito. E é exatamente isso que faço. Só que a cultura, de certa forma, traz uma dimensão que a política não traz.

    Mas ouvir por meio da cultura é algo muito não hierárquico. Você pode ir a um lugar com pessoas de todas as origens, todas as classes sociais, todas as rendas e todas as idades e criar uma conversa da qual todos possam participar. Não há rigidez.

    Então, de certa forma, sinto-me muito abençoada, grata e privilegiada por apoiar meu pai e, agora, meu irmão na formação da estratégia cultural do Catar, cujo coração é a diplomacia. FB: Quando começou, você acreditava que o que estava fazendo se transformaria em algo tão grande para o seu país? SM: Acredito que meu pai tinha uma grande visão, e eu acreditava nele.

    Sempre quis ser como ele. Eu era uma soldada no exército do meu pai, e agora sou uma das soldadas do meu irmão. Acho que a coisa mais poderosa que você pode fazer é investir nas pessoas.

    Se você investir nelas com as ferramentas certas, o céu é o limite. Então não fiz isso porque sentia que se tornaria algo grande. Fiz por responsabilidade, como uma resposta ao dever.

    Todo mundo hoje pode facilmente falar sobre o que o Catar faz, mas muitos se esquecem de que, há 60 ou 70 anos, não tínhamos nada. Foi preciso um homem, uma visão e uma crença. Quando você tem uma visão de 20 anos, tem um plano de longo prazo.

    Agora estamos planejando lançar a próxima visão, a 2050, que guiará os próximos 20 anos. FB: Qual é a importância de ser mulher em uma posição tão poderosa e estratégica do Oriente Médio? SM: Quando era menina, nunca me senti diferente dos meus irmãos, por causa do meu pai.

    Ele era a espinha dorsal da nossa família e do nosso país e acreditava na igualdade. Dizia que toda mulher e todo homem deveriam participar da sociedade. Ele nunca disse: “Você é uma menina, não pode fazer isso” ou “Você precisa fazer isso porque é mulher”.

    Então nunca cresci com essa dicotomia entre mulher e homem. Sei que essa não é a realidade em todos os lugares e entendo que existe uma realidade diferente em outras partes do mundo. Mas, no Catar, você vê mulheres liderando ministérios e organizações importantes em todos os setores, e mulheres e homens recebem salários iguais.

    Não importa se você é mulher ou homem, você é remunerado pelo seu trabalho. Isso faz parte dos nossos valores e do nosso sistema. Mulheres que decidem ficar em casa e cuidar dos filhos também são igualmente valorizadas.

    Para mim, nosso papel como mulheres é participar da sociedade. E criar a próxima geração é tão importante quanto ter um emprego. FB: Você trabalhou pela construção do pavilhão permanente do Catar em na Bienal de Veneza e diversas iniciativas de intercâmbios culturais.

    Os catarianos estão fazendo o mesmo movimento que você faz internacionalmente? SM: O Pavilhão Nacional do Catar em Veneza faz parte da nossa iniciativa de diplomacia cultural com a Itália, que celebraremos em 2028. É um legado da nossa Copa do Mundo.

    Fizemos o mesmo com o Brasil em 2014. Temos uma população muito pequena, enquanto o Brasil tem uma população muito maior e, portanto, muito mais talento nas artes, nos esportes e na indústria. O que fazemos é facilitar oportunidades para que os artistas vejam a arte como um caminho profissional.

    Antes ela era vista como um um hobby. Agora eles dizem: “Sou cineasta” e sentem orgulho. Não sentem que precisam ter outros trabalhos paralelos.

    É uma mudança de mentalidade e percepção cultural sobre o que é ser artista. ” Isso levou tempo. Por isso precisávamos de uma estratégia de longo prazo.

    FB: Você tem artistas brasileiros na sua coleção? SM: Temos. Mostramos uma instalação de Ernesto Neto durante a Copa do Mundo.

    Também mostramos muitas colaborações entre Brasil e Catar quando fizemos o Ano da Cultura com o Brasil, em 2014. FB: Você é filha da Sheikha Moza, um ícone de elegância e moda do nosso tempo. Você se lembra de alguma dica de estilo que sua mãe lhe deu?

    SM: Na verdade, eu era muito moleca. Nunca me importei com moda durante a maior parte da minha vida. Tenho cinco irmãos e praticava muitos esportes, então minha mãe desistiu de tentar fazer com que eu gostasse de moda.

    Foi através do trabalho com arte que comecei a amar a moda. Mas minha mãe sempre foi elegante, respeitando nossa cultura e tradição, ao mesmo tempo em que abraçava a moda moderna e contemporânea. Toda vez que fazemos uma exposição de moda — fizemos Valentino, Dior e, no próximo ano, faremos Schiaparelli —, sempre tentamos mostrar como ela adotou u

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