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    Subsolo brasileiro guarda um poderoso segredo capaz de ajudar o planeta a enfrentar o aquecimento global
    Olhar Digital·22 de set., 20:37

    Subsolo brasileiro guarda um poderoso segredo capaz de ajudar o planeta a enfrentar o aquecimento global

    Quando se fala em crise climática e aquecimento global, o dióxido de carbono – popularmente chamado de gás carbônico (CO2) – costuma ser apontado como o grande vilão da história. No entanto, do ponto de vista da química e da biologia, a substância é parte integrante da nossa atmosfera e cumpre um papel vital no equilíbrio térmico da Terra . O verdadeiro problema está na quantidade e no ritmo das emissões humanas.

    Ao queimarmos combustíveis fósseis e realizarmos processos industriais em larga escala, jogamos na atmosfera um volume de carbono muito maior do que a Terra consegue absorver naturalmente. Esse acúmulo desmedido retém calor em excesso na atmosfera, alterando o clima global, desregulando o regime de chuvas e prejudicando a agricultura . Para enfrentar esse desafio, pesquisadores e governos têm voltado os olhos para uma solução que está logo abaixo dos nossos pés.

    O subsolo brasileiro possui características geológicas únicas que podem transformá-lo em um gigantesco depósito seguro para o carbono, ajudando a limpar a atmosfera e a frear o aquecimento global. A tecnologia de Captura e Armazenamento de Carbono (CCS) intercepta o dióxido de carbono emitido por indústrias, transporta o gás e o injeta com segurança no subsolo, ajudando a combater o aquecimento global. – Crédito: wasanajai – Shutterstock Entendendo o CO2: da proteção ao aquecimento descontrolado Para entender como o subsolo pode ajudar a conter a crise climática, é preciso primeiro compreender o papel do gás carbônico no ar.

    Existe uma confusão entre o conceito de poluição direta e o de efeito estufa. A queima de combustíveis como gasolina e diesel solta no ar fuligem e carbono negro, que afetam a qualidade do ar e a nossa saúde. A mesma queima libera CO2, mas esse gás atua de uma forma completamente diferente no planeta.

    Em participação no programa Ciência no Rádio, um projeto do Observatório Nacional (ON), o geólogo da Petrobras Rafael Pietzsch, empresa parceira da instituição em diversos projetos de ponta do país, detalha essa diferença fundamental entre os dois fenômenos. “O CO2 como gás, por si só, não causa poluição da maneira que entendemos outras substâncias como poluentes”, disse o especialista. “A queima de gasolina e diesel nos motores de carros, por exemplo, libera no escapamento diversos produtos gasosos e particulados, como a fuligem ou o carbono negro, e estes sim são poluentes.

    Essa combustão também libera CO2 gasoso, mas ele em si não é poluente.   Pietzsch explica que essa dinâmica é amplamente compreendida por químicos e físicos, além de pesquisadores de áreas como a geoquímica e a astrofísica, que estudam atmosferas planetárias de forma comparativa. O geólogo detalha o mecanismo dessa retenção de calor: “O CO2 atmosférico não deixa toda essa energia emitida pela superfície do planeta escapar para o espaço.

    Se a Terra não tivesse gases de efeito estufa na atmosfera, a temperatura média da superfície seria cerca de 30 a 33 graus Celsius mais baixa do que é hoje. ”  Dessa forma, a retenção de calor é indispensável para que a Terra continue habitável. No entanto, quando a humanidade lança um volume expressivo de gás carbônico na atmosfera de forma acelerada, ela quebra o equilíbrio dos ciclos naturais.

    O planeta não ganha tempo suficiente para se adaptar às novas temperaturas, o que desencadeia instabilidades na vida em sociedade. O CO2 capturado em indústrias pode ser comprimido e injetado em rochas porosas profundas, onde fica isolado por camadas impermeáveis e pode mineralizar com segurança. – Crédito: Imagem gerada por IA Pietzsch alerta que o aumento acelerado de gás carbônico na atmosfera ameaça alterar o clima em curto prazo, trazendo prejuízos diretos para a agricultura, as regiões costeiras e a biodiversidade.

    O geólogo lembra que “geralmente, mudanças repentinas têm mais chances de trazer prejuízo do que benefícios” e compara o impacto desse desequilíbrio climático a imprevistos graves na vida pessoal, como uma demissão ou uma mudança de cidade não planejada. “Imagine como essas circunstâncias hipotéticas e inesperadas podem causar o caos súbito nas nossas vidas”. Diante dessa urgência, estudos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) apontam que não basta apenas reduzir as futuras emissões de gases .

    Para impedir que o aquecimento do planeta ultrapasse a marca crítica de 2 °C, será necessário retirar do ar o carbono que já acumulamos. É nesse cenário que surge a tecnologia de Captura e Armazenamento Geológico de Carbono (CCS, na sigla em inglês). Como funciona o confinamento de carbono no subsolo?

    Pietzsch explica que a estratégia de CCS foca em interceptar o gás diretamente nas fontes emissoras estacionárias, como refinarias, usinas de energia, siderúrgicas e indústrias de cimento. Em vez de deixar o CO2 subir pelas chaminés, equipamentos capturam o gás, que é então comprimido e transportado por dutos até locais onde possa ser injetado a mais de mil metros de profundidade. No subsolo, o carbono é injetado em formações rochosas porosas, ficando retido sob camadas de rochas impermeáveis que atuam como uma barreira natural de vedação.

    Entre as estruturas mais indicadas para esse tipo de confinamento estão reservatórios salinos profundos, campos desativados de exploração de petróleo e gás, e até jazidas de carvão que não têm viabilidade econômica para mineração. Para garantir a total segurança desse processo, o Brasil regulamentou o armazenamento geológico de CO2. A nova legislação estabelece que, para o projeto ser considerado um armazenamento permanente, o carbono injetado deve permanecer isolado por no mínimo 50 anos ou passar por um processo de fixação mineral irreversível, no qual o gás reage com a rocha e vira pedra.

    Os empreendimentos desta modalidade precisam obrigatoriamente de licenciamento ambiental e autorização da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Além disso, a empresa responsável é obrigada a realizar um monitoramento constante da área por pelo menos 20 anos após o término da injeção. Para tornar o modelo mais eficiente, a regulamentação também libera o uso compartilhado de dutos e instalações de transporte por diferentes companhias.

    Etanol e bioenergia: o trunfo brasileiro para criar “emissões negativas” Se capturar o gás nas indústrias tradicionais evita novos lançamentos na atmosfera, o Brasil possui uma vantagem estratégica para dar um passo além: promover o que a ciência chama de “emissões negativas”, limpando ativamente o ar.   O mecanismo funciona a partir da fotossíntese – enquanto cresce, a cana-de-açúcar retira CO2 da atmosfera. Durante a fermentação para a produção do etanol nas usinas, parte desse gás é liberada em estado de alta pureza.

      Pietzsch destaca que o país combina agricultura consolidada e geologia favorável sem precisar derrubar mata nativa. “Já possuímos extensas áreas agrícolas, principalmente no estado de São Paulo, dedicadas ao cultivo da cana-de-açúcar e vinculadas a usinas sucroalcooleiras”, ressalta. ” Abaixo desse cinturão produtivo estende-se a Bacia do Paraná, formação sedimentar que abrange trechos do Sul e Sudeste.

    O geólogo explica que as rochas porosas da região, situadas a mais de mil metros de profundidade, oferecem alta capacidade teórica para o armazenamento do CO2. Esse encontro entre biomassa abundante e reservatório subterrâneo coloca o Brasil no centro das atenções para unir bioenergia e remoção de carbono. De olho nessa oportunidade, o governo do estado de São Paulo anunciou o projeto da primeira usina do país focada na produção de etanol com a tecnologia BECCS.

    A iniciativa é conduzida pelo novo Centro de Tecnologias para Captura e Armazenamento de Carbono Biogênico (CTCCSBio), sediado na Escola Politécnica da USP (Poli-USP). Da cana ao subsolo, o etanol brasileiro pode capturar carbono, armazená-lo em rochas profundas e ajudar a conter o aquecimento global.   O plano de cinco anos reserva os dois primeiros para avaliações geológicas e de infraestrutura.

    Como a injeção do gás não traz lucro direto instantâneo, a equipe estuda modelos para viabilizar o projeto no mercado de créditos de carbono, ajudando a cumprir o Plano de Ação Climática 2050 do estado. O mapa da mina: identificando as regiões com potencial no Brasil Com o objetivo de orientar indústrias e órgãos públicos sobre os melhores locais para implementar essas tecnologias, pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em parceria com a Petrobras, lançaram o Atlas de Captura, Utilização e Armazenamento de Carbono (CCUS: Explorando o Potencial do Brasil ) . 825 fontes estacionárias de CO2 no país – como refinarias, fábricas de cimento, usinas de etanol e siderúrgicas.

    A partir desse levantamento, os cientistas mapearam oito bacias sedimentares brasileiras com aptidão para armazenar carbono: Bacia do Paraná Bacia de Santos Bacia de Campos Bacia do São Francisco Bacia do Recôncavo Bacia de Sergipe-Alagoas Bacia Potiguar Bacia do Ceará O Atlas deu uma atenção especial às formações de rochas basálticas da Bacia do Paraná. Quando o gás carbônico entra em contato com o basalto sob alta pressão, ocorre uma reação química que transforma o gás em minerais sólidos no decorrer do tempo. Essa mineralização natural é considerada por geólogos a técnica de aprisionamento definitivo mais segura do planeta.

    Todo esse mapeamento foi integrado à Plataforma GIS CCUS Brasil , um ambiente virtual que organiza as áreas de acordo com o nível de detalhamento científico. A classificação varia de locais com dados geológicos preliminares ( Play ) a regiões amplamente estudadas e com alto grau de confiabilidade ( Prospect ). Comparação mostra como CCS e CCUS retiram CO₂ das emissões industriais.

    Enquanto o CCS concentra-se na captura e no armazenamento, o CCUS também permite reutilizar esse carbono em combustíveis, produtos químicos e aplicações industriais. – Crédito: Imagem gerada por IA Prazos, desafios técnicos e o caminho da transição energética Apesar das grandes expectativas, colocar esses projetos em prática em escala comercial exige planejamento de longo prazo. Não basta encontrar uma formação rochosa adequada; ela precisa estar razoavelmente próxima das indústrias que emitem o gás.

    Se a distância entre a fábrica e a área de injeção for longa demais, o custo de construção dos tubos de transporte inviabiliza o projeto. Pietzsch explica que a implementação dessas tecnologias demanda tempo e a integração de diferentes setores da sociedade. Segundo ele, ainda serão necessários anos de estudos em locais específicos para comprovar no campo as projeções teóricas do subsolo.

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