Tesouro tratou a febre, mas incerteza fiscal pode exigir novas intervenções, diz Vital da Warren
As recompras de títulos públicos ajudaram a reorganizar o mercado após a turbulência que se seguiu ao resultado das eleições, mas não eliminaram a preocupação com as contas públicas. Para Luis Felipe Vital, chefe de estratégia Macro e dívida pública da Warren, novas intervenções podem ser necessárias se o governo frustrar as expectativas de uma sinalização fiscal mais clara . “O Tesouro está tratando o sintoma, não a causa.
Você está tratando a febre do paciente, você não está tratando a doença”, afirmou em entrevista ao Money Times. Na avaliação do estrategista, a atuação conseguiu absorver parte do excesso de investidores tentando vender títulos e devolver condições de negociação ao mercado. A incerteza sobre a condução da política econômica no próximo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva , porém, permanece.
Uma sinalização de compromisso com o equilíbrio das contas e com a contenção do avanço da dívida pública seria importante para reduzir essa insegurança. Sem isso, o alívio proporcionado pelas operações pode ser insuficiente para evitar novos episódios de estresse. O que aconteceu?
Para Vital, a turbulência após o segundo turno refletiu a reação dos investidores a um resultado eleitoral que surpreendeu o mercado e alterou as expectativas para a condução da política econômica. Depois do primeiro turno, os preços dos ativos passaram a incorporar uma perspectiva de vitória de Flávio Bolsonaro , associada à expectativa de um ajuste fiscal mais rápido. Com a reeleição de Lula, o mercado precisou desfazer esse otimismo e acrescentar um prêmio pela incerteza fiscal, segundo o estrategista.
“Eu não colocaria como aposta, eu colocaria como reação do mercado”, afirmou. A intensidade desse movimento levou o Tesouro a avançar rapidamente nas medidas de intervenção. Em situações de estresse, explicou Vital, a instituição costuma começar pela redução dos lotes de títulos ofertados.
Depois, pode diminuir as emissões a volumes muito pequenos, e chegar à suspensão formal dos leilões. A intervenção no mercado seria o último recurso. Esse instrumento já foi utilizado em outros momentos de forte turbulência.
Em maio de 2017, após o Joesley Day , o Tesouro realizou operações extraordinárias de compra e venda de títulos. A divulgação da gravação de uma conversa entre o empresário Joesley Batista e o então presidente Michel Temer havia provocado uma crise política e uma forte reação dos ativos brasileiros. Em 2018, a greve dos caminhoneiros, combinada com incertezas políticas e um cenário externo desfavorável, também levou a intervenções.
As recompras voltaram a ser utilizadas durante a pandemia de covid-19, em 2020, e, mais recentemente, em março deste ano, diante da turbulência provocada pela guerra no Irã e das preocupações com os efeitos da alta do petróleo sobre a inflação. Recompra do Tesouro desta segunda foi diferente Desta vez, segundo Vital, o cancelamento dos leilões anunciado pelo Tesouro não foi suficiente para aliviar a pressão. A instituição passou, então, às recompras, com duas características que o estrategista destaca.
A primeira foi a decisão de apenas recomprar títulos, sem realizar vendas simultâneas . Na sua avaliação, a fila de investidores tentando se desfazer dos papéis era tão grande que a prioridade passou a ser absorver esse fluxo. Com as taxas em forte alta, vender novos títulos também seria pouco atraente para o Tesouro.
A segunda foi a adoção de um leilão de preço único: para cada papel, as propostas aceitas são liquidadas pelo mesmo preço, em vez de cada participante receber o valor que ofereceu. O mecanismo, explicou, ajuda a dar segurança aos investidores em momentos de grande incerteza, quando faltam referências para determinar o preço dos títulos. Isso estimula a participação no leilão e contribui para restabelecer as negociações.
O que pode provocar novas intervenções? Para Vital, uma frustração com os próximos anúncios fiscais poderia renovar a pressão sobre os títulos e, em uma situação extrema, comprometer novamente o funcionamento do mercado. A volatilidade permanece elevada.
Na manhã desta quarta-feira (28), as taxas haviam subido entre 40 e 50 pontos-base . Segundo ele, a piora do cenário externo e as preocupações com o impacto inflacionário da alíquota da CBS contribuíram para o movimento, em um ambiente já marcado pela incerteza e pela liquidez prejudicada. O estrategista ressalta, porém, que o Tesouro não intervém diante de qualquer oscilação das taxas .
As recompras são um instrumento de última instância, utilizado quando o excesso de ordens de venda dificulta as negociações entre os participantes. Na sua leitura, o objetivo da atuação brasileira é restabelecer esse funcionamento. O nível dos juros continua sendo determinado pelo mercado, a partir das perspectivas para a economia e as contas públicas.
É nesse cenário que o colchão de liquidez ganha importância. Trata-se de uma reserva de recursos que o Tesouro mantém em caixa para honrar os pagamentos da dívida pública. Essa disponibilidade permite reduzir temporariamente as emissões sem depender de novas vendas de títulos em condições desfavoráveis para cumprir os vencimentos imediatos.
O Tesouro encerrou agosto com um colchão de liquidez de R$ 1,208 trilhão, suficiente para cobrir pouco mais de sete meses de vencimentos da dívida pública, segundo os dados oficiais mais recentes localizados. O caixa também dá capacidade para realizar recompras, absorvendo parte dos papéis que os investidores querem vender em momentos de estresse. Na avaliação de Vital, essa flexibilidade ajuda o Tesouro a reorganizar o mercado até que seja possível retomar gradualmente os leilões.
A reserva, contudo, não substitui uma resposta às preocupações fiscais. Se os próximos anúncios decepcionarem os investidores, a pressão pode voltar. Trocar a equipe econômica basta?
A definição dos nomes da equipe econômica é acompanhada pelos investidores, mas, para Vital, a mensagem sobre a política fiscal terá mais peso do que a escolha do interlocutor . Ele elogiou a equipe atual e os nomes de Rafael Fonteles e Geraldo Alckmin, citados como possíveis integrantes da próxima gestão. Ainda assim, considera que uma troca sem uma proposta capaz de responder às preocupações com as contas públicas pode ter efeito limitado.
“Se trouxer um nome novo, mas sem a proposta nova, eu acho que ela não traz o efeito esperado”, afirmou. Essa sinalização também será decisiva para a trajetória das taxas dos títulos públicos. Vital avalia que períodos de estresse podem levar os juros a exagerar na alta antes de encontrar um patamar de equilíbrio mais baixo.
Ele não aponta, contudo, um nível específico para essa acomodação. Na sua avaliação, anúncios que reduzam a insegurança sobre a condução das contas públicas poderiam diminuir a remuneração adicional exigida pelos investidores para financiar o governo. “Uma mensagem clara, bem dada em relação aos rumos fiscais, ao rumo da política econômica do governo reeleito, seria capaz de reduzir bastante esse prêmio”, disse.
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Resumo publicado pelo SJX NEWS. O conteúdo integral pertence ao veículo de origem.
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