Turismo de observação contribui para preservar baleias-jubarte
Com apenas 6 anos de idade, Paulo Salomão começou a acompanhar o pai em suas saídas para o mar. Era início da década de 1980 no distrito pesqueiro de Ponta de Areia, em Caravelas (BA), e não faltavam peixes nos arredores do Arquipélago dos Abrolhos, um dos principais redutos da biodiversidade marinha do Brasil. "Só que eu mareava muito, muito, muito.
Eu ficava jogado no chão do convés da embarcação e falava comigo mesmo que eu nunca ia conseguir trabalhar no mar. Mas eu gostava tanto, que fui insistindo e acabei acostumando", ele lembra. Com o sonho vivo, logo que completou 18 anos, fez o curso de piloto de embarcação oferecido pela Marinha do Brasil.
Mas a criação do Parque Marinho dos Abrolhos, em 1983, e a implementação de regras de proteção ambiental nos anos seguintes já tinham transformado o cenário da região. Com a pesca proibida na área do parque, Salomão decidiu viver dos peixes vivos: transportando turistas até Abrolhos e ensinando mergulho. Caravelas - Da criança que enjoava no mar a capitão de barco de pesquisa do Projeto Baleia Jubarte: Paulo Salomão - Tânia Rêgo/Agência Brasil Não à toa, o primeiro barco do piloto que enjoava com o balanço das ondas, e insistiu em tirar seu sustento de um mar onde não se pode pescar, foi batizado de Teimoso.
Hoje, Paulo Salomão tem quatro embarcações, incluindo uma de grande porte, com camas para 50 pessoas, e emprega dez trabalhadores. Ele ainda transporta muitos mergulhadores interessados nos peixes, tartarugas e corais de Abrolhos, mas o crescimento do negócio foi proporcionado por um bicho muito maior: "Há uns dez anos, o maior fluxo de pessoas passou a ser em julho e agosto. Hoje só agosto, que é o pico, ganha dos três meses de verão.
" Maternidade Abrolhos é uma grande maternidade das baleias-jubarte. Todos os anos, elas percorrem cerca de 4 mil quilômetros desde a Antártica, onde passam alguns meses se alimentando, até as águas mais quentes do arquipélago no sul da Bahia, onde acasalam e têm seus filhotes. No caminho, dão espetáculos em muitas cidades costeiras que assim como Caravelas, veem crescer um pujante ramo econômico: o turismo de observação de baleias.
"Muitas pessoas, que antes tinham outras profissões, hoje são marinheiros e estão trabalhando na área", conta Paulo. Para quem já trabalhava com o turismo, a temporada das baleias duplicou a fonte de renda. "Antes a gente só contava com o verão, era só uma temporada que a gente tinha.
Com o aumento da população de baleias, a gente passou a contar com fluxo de pessoas no inverno também. E é um dinheiro a mais que circula no município", ele acrescenta. Caravelas - Turismo de observação é forte no Arquipélago de Abrolhos, principal ponto reprodutivo da espécie e local de concentração de cerca de 90% das baleias-jubarte que chegam ao Brasil - Tânia Rêgo/Agência Brasil Mas tudo isso só foi possível porque a população de baleias do Brasil subiu de menos de 2 mil indivíduos no início da década de 1990 para cerca de 35 mil, considerando a última estimativa feita pelo Instituto Baleia Jubarte, em 2022.
Três fatores foram centrais para este aumento: a proibição da caça de baleias no país, decretada em 1987; a criação do Parque Marinho dos Abrolhos, protegendo a área de reprodução dos animais; e o surgimento de grupos ambientalistas focados na pesquisa e preservação da espécie. O maior deles é o Instituto Baleia Jubarte, que nasceu em 1988 como um projeto, e se institucionalizou há exatamente 30 anos, com apoio da Petrobras, principal financiadora das atividades até hoje. De acordo com o diretor executivo do Instituto Baleia Jubarte, Eduardo Camargo, o turismo de observação tem sido uma grande ferramenta de preservação, porque "agrega valor econômico à baleia viva", e aponta um caminho de convivência com os animais, sem interferir no seu ciclo de vida.
"Não tem como falar, "agora as baleias vão passar, então ninguém vai pro mar nesses meses". O que precisa é regular isso de uma forma que não seja prejudicial para elas, mas também não ignore que você tem pessoas vivendo ali. É uma forma de criar uma renda limpa, quando ela é bem feita", ele defende.
Caravelas - Eduardo Camargo é diretor executivo na Instituto Baleia Jubarte. A espécie é avistada no Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, no litoral sul da Bahia - Tânia Rêgo/Agência Brasil Legislação Para atuar no turismo de observação de baleias, os operadores precisam seguir regras da Marinha e do Ministério do Meio Ambiente. Os barcos precisam cumprir exigências para obter a autorização para realizar turismo náutico, além de cumprir regras de boas práticas durante a interação com os animais.
Uma nova portaria publicada em agosto deste ano determina, por exemplo, que os barcos devem manter distância mínima de 100 metros dos animais, e podem permanecer próximos a eles por, no máximo, 60 minutos, ou 30 minutos, no caso de fêmeas com filhotes. Apenas duas embarcações podem se aproximar dos animais por vez. Além disso, é proibida por lei qualquer tentativa de toque ou captura, e também a perseguição e o cerco às jubartes, ou qualquer movimentação que obrigue os animais a mudarem seu deslocamento.
A obrigação de fiscalizar se os operadores estão cumprindo as regras é do poder público, mas o Instituto Baleia Jubarte tem parcerias com diversos municípios para oferecer capacitação aos trabalhadores envolvidos com o turismo de observação. "A gente debate, apresenta as regras. Todos os anos, agrega pessoas novas, então sempre tem que voltar atrás e lembrar tudo de novo.
Algumas localidades implantaram um selo de responsabilidade e fizeram um acordo de cooperação com o Ins
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