Vacinação é proteção para o coração: novo pilar da prevenção cardiovascular
Quando pensamos em prevenir um infarto, geralmente lembramos do controle do colesterol, da pressão arterial, da alimentação e da atividade física. Poucas pessoas, entretanto, associam a vacinação à proteção do coração. Essa relação vem ganhando importância na medicina e representa uma mudança na maneira como entendemos a prevenção cardiovascular.
Em 2025, a Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) publicou um documento de consenso propondo que a vacinação seja reconhecida como o quarto pilar da prevenção cardiovascular, ao lado do controle dos fatores de risco, das mudanças no estilo de vida e do tratamento medicamentoso. A recomendação parte de uma constatação importante: determinadas infecções não afetam apenas os pulmões ou as vias respiratórias. Elas também podem aumentar o risco de complicações cardiovasculares , especialmente em pessoas que já apresentam doenças cardíacas.
Leia Mais Pediatra alerta para importância da vacinação ao círculo familiar de bebês Brasil avança e reduz em 86% número de crianças sem nenhuma dose de vacina OMS critica mudanças na vacinação dos EUA por falta de respaldo científico Por que uma gripe pode desencadear um infarto? Durante uma infecção, o organismo desencadeia uma resposta inflamatória para combater o agente infeccioso. Esse processo pode provocar alterações na coagulação, aumentar a frequência cardíaca e exigir maior esforço do coração.
Em pessoas com aterosclerose, doença caracterizada pela formação de placas de gordura nas artérias, a inflamação pode contribuir para a instabilidade dessas placas e favorecer a formação de coágulos. Dependendo da artéria comprometida, o resultado pode ser um infarto ou um acidente vascular cerebral (AVC). Um estudo publicado no New England Journal of Medicine demonstrou que o risco de infarto foi aproximadamente seis vezes maior na primeira semana após a confirmação laboratorial de influenza.
É importante observar que esse resultado representa um aumento relativo e temporário do risco, não significa que uma em cada seis pessoas com gripe terá um infarto. A COVID-19 também demonstrou capacidade de provocar complicações cardiovasculares, tanto durante a fase aguda quanto após a infecção. Em pessoas com insuficiência cardíaca, infecções respiratórias podem ainda desencadear descompensações que exigem atendimento hospitalar.
Esses efeitos ajudam a explicar por que prevenir infecções também pode representar uma forma de proteger o sistema cardiovascular. Quais vacinas entram nessa estratégia? A vacina contra influenza é uma das mais estudadas nesse contexto.
Além de reduzir o risco de gripe e suas complicações, existem evidências de benefício cardiovascular, especialmente em pacientes com doença coronariana. No estudo IAMI, publicado na revista Circulation, pacientes que receberam a vacina contra influenza logo após um infarto ou durante uma internação por doença coronariana apresentaram menor ocorrência de um desfecho combinado de morte, novo infarto e trombose de stent em comparação com aqueles que receberam placebo. A vacinação contra COVID-19 também integra essa estratégia, principalmente pela proteção contra formas graves da doença, hospitalizações e complicações associadas à infecção.
Outras vacinas merecem atenção. A pneumocócica protege contra infecções causadas pelo pneumococo, incluindo determinadas pneumonias. Já a vacinação contra o vírus sincicial respiratório (VSR) ganhou importância com a disponibilidade de imunizantes para grupos específicos, especialmente idosos e pessoas com fatores de risco.
Isso não significa que todas essas vacinas tenham o mesmo nível de evidência de redução de infartos ou AVCs. O benefício cardiovascular direto é mais bem estudado para a influenza. Para outros imunizantes, parte da proteção esperada decorre da prevenção de infecções graves capazes de descompensar doenças cardíacas.
As indicações devem respeitar a idade, as condições clínicas e as recomendações vigentes do Programa Nacional de Imunizações e das sociedades médicas. O coração não pode ser avaliado isoladamente A prevenção cardiovascular evoluiu muito nas últimas décadas. Aprendemos a controlar melhor o colesterol, tratar a hipertensão, reconhecer os riscos do diabetes e utilizar medicamentos capazes de reduzir eventos cardiovasculares.
Hoje, sabemos que uma avaliação completa precisa ir além desses fatores tradicionais. Obesidade, doença renal crônica, qualidade do sono, processos inflamatórios e histórico de infecções também influenciam a saúde cardiovascular. A situação vacinal deve fazer parte dessa conversa, especialmente no acompanhamento de pacientes com doença coronariana, insuficiência cardíaca e outras condições que aumentam o risco de complicações.
Isso não significa substituir medicamentos, exames ou mudanças de hábitos por vacinas. A proposta é acrescentar uma camada de proteção a estratégias que já demonstraram benefícios. Um paciente que controla adequadamente a pressão arterial e o colesterol, mas permanece vulnerável a infecções potencialmente graves, pode estar deixando de utilizar uma medida preventiva importante.
A vacinação não elimina o risco de infarto ou AVC, assim como nenhuma intervenção isolada consegue fazê-lo. Mas reconhecer a relação entre infecções e eventos cardiovasculares amplia nossa capacidade de prevenção. O coração não funciona separado do restante do organismo.
Protegê-lo também significa reduzir as agressões que outras doenças podem provocar. É por isso que perguntar sobre a vacinação deve se tornar tão natural na consulta cardiológica quanto perguntar sobre medicamentos, atividade física e alimentação. *Artigo escrito por Dra.
840 | Cardiologista e membro da Brazil Health ]]>
Resumo publicado pelo SJX NEWS. O conteúdo integral pertence ao veículo de origem.
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