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    Forbes Brasil·30 de out., 18:18

    Vender Energia ou Vender Inteligência

    Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo. No domingo, Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos e chegou a um quarto mandato, coisa inédita no país. Passei a semana lendo análises sobre o resultado, mas o número que não me sai da cabeça não veio das urnas.

    Veio do Balanço Energético Nacional: em 2025, 86,8% da eletricidade brasileira saiu de fontes renováveis. A inteligência artificial virou, antes de tudo, um problema de energia. As big techs disputam eletricidade como antes se disputava petróleo, e pouquíssimos países têm um número desses para colocar na mesa.

    O Brasil tem o que o mundo quer. A pergunta que esta eleição deveria ter respondido, e não respondeu, é o que a gente pretende fazer com isso. Lá fora, a resposta já foi dada.

    Washington trata chip como assunto de segurança nacional e decide quem pode comprar o quê. Pequim gasta o que for preciso para não depender de ninguém. Os dois continuam interdependentes, mas passaram a usar essa interdependência como arma.

    Trump e Xi Jinping discordam de quase tudo, menos de uma coisa: capacidade computacional é território, e território se ocupa. Em 15 de setembro, o governo sancionou o Redata, regime que tira impostos da compra de equipamentos para quem instalar data centers no país. As contrapartidas são mais concretas do que o debate público deixou perceber.

    A empresa precisa usar energia limpa, gastar no máximo 0,05 litro de água por kWh no resfriamento, investir em pesquisa com universidades e empresas brasileiras, reservar capacidade para instituições nacionais e destinar ao mercado interno pelo menos 10% do processamento que fornece. Li esse último número duas vezes. 10%.

    Os outros noventa podem atender a quem quiser, onde quiser. O Brasil já viu esse filme. Somos um dos maiores exportadores de minério de ferro do mundo e, por décadas, mandamos a pedra para fora e compramos de volta as máquinas, os equipamentos e a tecnologia feitos com ela.

    O valor ficou com quem transformou. A IA pode repetir o roteiro com outra matéria-prima. A gente entra com o quilowatt-hora, a água e o terreno.

    Os chips vêm de Taiwan, os modelos vêm da Califórnia ou de Pequim, e as aplicações vêm de quem souber construí-las. Corremos o risco de virar o terreno barato da IA dos outros. Não acho que a saída seja recusar o investimento.

    Data center é infraestrutura, e infraestrutura atrai outras coisas. Mas não atrai sozinha. Incentivo fiscal é dinheiro público que deixa de ir para escola e hospital, e um data center consome energia e água de uma região inteira.

    Se o país vai pagar essa conta, precisa saber o que recebe em troca. Como psicóloga, conheço bem um padrão: quem tem muito raramente se sente pressionado a decidir. Abundância costuma adiar escolhas.

    O Brasil passou décadas adiando as suas porque sempre teve mais uma riqueza natural para oferecer. E aqui a eleição volta a importar. Parte das regras do Redata ainda depende de regulamentação do Executivo.

    Quem vai escrevê-la é um governo que, a partir de fevereiro, negocia com um Senado em que o PL terá a maior bancada, com 29 das 81 cadeiras, e com uma Câmara em que o partido elegeu 121 deputados. Data center é decisão de vinte anos, e investidor não gosta de regra que pode mudar a cada votação. Se a agenda de tecnologia virar mais uma trincheira entre Planalto e Congresso, os dois lados perdem.

    Quem ganha é quem vende os chips. Escrevo nesta coluna sobre tecnologia no trabalho, e é por aí que eu olharia. Um data center pronto emprega pouca gente.

    O valor está em volta dele: em quem sabe adaptar um modelo para o agro, construir um sistema que funcione no SUS, criar um produto em português para o pequeno varejista. Nada disso sai de incentivo fiscal. Sai de gente formada, de empresa disposta a experimentar e de universidade com acesso à máquina.

    Para mim, a obrigação de reservar capacidade para instituições nacionais é a linha mais importante da lei, e foi a que menos apareceu no noticiário. A mesma pergunta vale para qualquer empresa brasileira que esteja comprando IA hoje: estamos só alugando a capacidade dos outros ou formando gente capaz de construir alguma coisa em cima dela? A eleição acabou no domingo.

    A decisão sobre se o Brasil vai vender energia ou inteligência mal começou. Iona Szkurnik é fundadora e CEO da Education Journey, plataforma de educação corporativa que usa Inteligência Artificial para uma experiência de aprendizagem personalizada. Com mestrado em Educação e Tecnologia pela Universidade de Stanford, Iona integrou o time de criação da primeira plataforma de educação online da universidade.

     Iona é também cofundadora da Brazil at Silicon Valley, fellow da Fundação Lemann, mentora de mulheres e investidora-anjo. Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores. O post Vender Energia ou Vender Inteligência apareceu primeiro em Forbes Brasil .

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