Vitória de Lula Pressiona Câmbio e Ameaça Comércio entre Brasil e Argentina
Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo. A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil abriu uma nova frente de incerteza para a economia argentina. O resultado do segundo turno, que garantiu ao presidente 51,77% dos votos, contra 48,23% de Flávio Bolsonaro, alterou as expectativas dos investidores que apostavam em uma mudança de orientação política e econômica no principal parceiro comercial do país.
A reação se espalhou rapidamente pelos mercados financeiros: as ações e os títulos soberanos caíram, o risco-país aumentou e o dólar no mercado atacadista atingiu uma nova máxima anual. Ao mesmo tempo, a desvalorização do real acendeu um alerta sobre a competitividade das exportações argentinas. O cenário, no entanto, também pode abrir oportunidades para atrair capitais em busca de outros destinos na região, embora essa possibilidade dependa da evolução das políticas econômicas e da confiança dos investidores.
Queda das ações e pressão sobre os títulos argentinos O fundo de índice negociado em bolsa (ETF, na sigla em inglês) EWZ, que replica o desempenho das principais empresas brasileiras listadas em bolsa, chegou a cair cerca de 27% em dólares. O real também se desvalorizou em relação à moeda americana, enquanto os investidores reavaliavam suas posições após o resultado eleitoral. O movimento repercutiu nos ativos argentinos.
Durante o pregão de segunda-feira, o índice MSCI Merval chegou a recuar cerca de 6,7%, enquanto os certificados de ações de empresas locais negociados em Nova York registraram perdas expressivas. A Mercado Livre liderou as quedas, com desvalorização superior a 12% em alguns momentos do pregão. Também foram observados recuos significativos nas ações do setor bancário.
Os títulos soberanos argentinos denominados em dólares também não escaparam da tendência. Os papéis perderam cerca de US$ 1 (R$ 5) nos vencimentos de curto prazo e quase US$ 1,50 (R$ 7,50) nos de longo prazo, com cotações que atingiram novas mínimas do ano. Paralelamente, o risco-país avançou dos 707 pontos-base registrados no fechamento de sexta-feira para uma faixa entre 738 e 745 pontos durante o pregão.
“O desfecho eleitoral no Brasil acrescentou pressões sobre os ativos locais, aprofundando a tendência de queda observada nas últimas semanas”, explicou Eric Ritondale, economista-chefe da Puente. O executivo atribuiu a reação a um cenário regional de maior aversão ao risco, que levou os investidores a reduzir sua exposição aos mercados emergentes. A deterioração também atingiu o mercado cambial.
540 pesos, e atingiu a máxima do ano. “Esse movimento reflete tanto a fraqueza do real brasileiro quanto a decisão da autoridade monetária de acomodar gradualmente a volatilidade externa para evitar tensões no mercado à vista, o que, no curto prazo, também pode vir acompanhado de um ritmo mais moderado de compra de reservas”, esclareceu Ritondale. A reação anulou completamente o alívio provocado pelas eleições brasileiras em seu primeiro turno, no início de outubro.
Naqueles pregões, os títulos soberanos argentinos haviam registrado uma recuperação de dois dias, mas o movimento perdeu força na segunda semana do mês, quando a deterioração do cenário internacional voltou a elevar os prêmios de risco da dívida soberana. “O cenário internacional passou a ser o principal fator determinante, explicando cerca de dois terços da alta acumulada do risco-país”, afirmou o economista da Puente. Nessa perspectiva, o resultado prolonga as pressões externas que já condicionavam o desempenho dos ativos locais, embora não implique, por si só, uma deterioração dos fundamentos econômicos argentinos.
O risco político persiste, mas há uma oportunidade para a Argentina Os estrategistas do Grupo IEB chamaram a atenção para a rapidez com que uma mudança nas expectativas políticas pode alterar o valor dos ativos financeiros. Para dimensionar o movimento no Brasil, os especialistas observaram que uma queda de 27% sobre uma capitalização de mercado hipotética de US$ 1 trilhão (R$ 5 trilhões) equivaleria a uma perda de US$ 270 bilhões (R$ 1,35 trilhão). Trata-se de um cálculo ilustrativo, mas que ajuda a dimensionar a magnitude potencial de episódios como esse.
Em seguida, eles relembraram o impacto do resultado das eleições primárias abertas, simultâneas e obrigatórias (PASO, na sigla em espanhol) de 2019 na Argentina e ressaltaram que os mercados financeiros e a economia real estão estreitamente relacionados. “O mercado é um termômetro das expectativas econômicas”, afirmaram em um relatório, ao alertar que as oscilações nos preços dos ativos podem antecipar mudanças nas condições de financiamento, nos investimentos e na confiança, com consequências posteriores para o emprego e o consumo. No caso argentino, a incerteza sobre a continuidade do programa econômico foi identificada como um dos fatores que influenciam a avaliação da dívida.
A taxa a termo ( forward ) calculada com base nos títulos AO27 e AO28 estava próxima de 21%. O indicador reflete a rentabilidade exigida pelo mercado para investir em papéis cujos vencimentos atravessam a mudança de mandato presidencial. Embora outras variáveis financeiras também influenciem essa taxa, o risco de reversão das políticas econômicas é um componente relevante.
A instituição, no entanto, considerou que a volatilidade regional pode se transformar em uma oportunidade para o país. Se a percepção de incerteza no Brasil aumentar, alguns investidores poderão buscar alternativas dentro da região. Para atrair esses fluxos de capital, a Argentina precisaria manter a disciplina fiscal, consolidar a desinflação e oferecer previsibilidade em relação às regras do jogo.
“A Argentina poderia adquirir uma relevância estratégica ainda maior para os Estados Unidos e os investidores internacionais. Um Brasil percebido como menos previsível poderia favorecer o reposicionamento da Argentina como destino regional de investimentos, particularmente nos setores de energia, mineração, agroindústria, infraestrutura e serviços financeiros”, afirmaram representantes do IEB. A instituição acrescentou que o governo poderia avaliar reduções de impostos para estimular o consumo e os investimentos, desde que fossem compatíveis com o equilíbrio fiscal.
O objetivo deveria ser transformar a estabilidade macroeconômica em crescimento, recuperação do poder de compra e geração de empregos no setor privado. Real mais fraco ameaça as exportações argentinas Além das cotações nos mercados financeiros, o resultado eleitoral pode ter consequências para o comércio entre os dois países. O Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina e um mercado decisivo para os produtos manufaturados industriais, especialmente para a indústria automobilística.
Nos primeiros nove meses de 2026, as exportações argentinas para o Brasil somaram US$ 9,789 bilhões (R$ 48,945 bilhões), com crescimento de 4,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. No mesmo intervalo, as importações argentinas provenientes do Brasil totalizaram US$ 12,005 bilhões (R$ 60,025 bilhões), uma queda de 17% em comparação com os primeiros nove meses de 2025. Com isso, o comércio bilateral resultou em um déficit comercial de US$ 2,216 bilhões (R$ 11,08 bilhões) para a Argentina.
A importância do mercado brasileiro fica evidente na composição das vendas argentinas: segundo dados da Bolsa de Comércio de Rosário, 64% das exportações da Argentina para o país correspondem a produtos manufaturados industriais. A desvalorização do real pode dificultar esse fluxo comercial porque torna os produtos argentinos relativamente mais caros para os compradores brasileiros. Se os fabricantes do país vizinho conseguirem oferecer mercadorias a preços mais competitivos, as empresas argentinas poderão enfrentar dificuldades maiores para sustentar suas vendas externas.
O câmbio, contudo, não será o único fator determinante. Gustavo Perego, diretor da consultoria Abeceb, observou que cerca de 50% do comércio do Mercosul está relacionado ao setor automobilístico. Nesse segmento, a evolução da atividade econômica pode ter um peso ainda maior do que as oscilações cambiais.
As perspectivas para 2027 acrescentam outro motivo de preocupação: a expectativa é de que o crescimento econômico brasileiro desacelere para cerca de 1%. Uma expansão mais fraca reduziria a demanda por produtos importados e poderia afetar os fornecedores argentinos, independentemente da trajetória do real. *Matéria publicada originalmente em Forbes Argentina O post Vitória de Lula Pressiona Câmbio e Ameaça Comércio entre Brasil e Argentina apareceu primeiro em Forbes Brasil .
]]>
Resumo publicado pelo SJX NEWS. O conteúdo integral pertence ao veículo de origem.
Leia a matéria completa em Forbes Brasil →