Expedição científica mapeia biodiversidade isolada em tepuis do Amazonas
Um grupo internacional de pesquisadores realiza a maior prospecção biológica já conduzida no topo da Serra do Aracá. O objetivo é catalogar espécies exclusivas desses ecossistemas de altitude e integrar novos espécimes aos acervos de museus brasileiros e estrangeiros.
Uma força-tarefa composta por 16 cientistas desembarcou no extremo norte do Amazonas para investigar a fauna e a flora da Serra do Aracá. O trabalho concentra-se no topo de um tepui — formação geológica caracterizada por montanhas de cume plano e isolado —, localizado a 1.260 metros de altitude e a cerca de 220 quilômetros de Barcelos. A expedição, que conta com apoio logístico e de segurança do Exército Brasileiro, é financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e busca entender particularidades biológicas que diferem drasticamente das encontradas nas planícies amazônicas.
O esforço multidisciplinar reúne especialistas de instituições renomadas, como USP, Inpa, Ifam, UFSCar, além de centros de pesquisa da França, Espanha, Estados Unidos e Noruega. O grupo é formado por experts em diversas áreas, incluindo botânica, ornitologia, herpetologia e entomologia. A rotina dos pesquisadores é marcada pela busca incessante por amostras, desde cupins em troncos decompostos até a coleta de sangue de espécies locais, água e solo, visando a preservação do material para estudos futuros em acervos biológicos, como o do Museu de Zoologia da USP.
A logística dessa operação exigiu um planejamento rigoroso que antecedeu a chegada ao campo. Segundo pesquisadores envolvidos, a preparação iniciou-se em laboratório, com o estudo aprofundado de artigos científicos e listas de espécies previamente registradas na região. Esse nível de antecipação permite que o tempo em campo seja otimizado, uma vez que o acesso a essas áreas remotas é complexo e depende de suporte aéreo militar. A urgência na coleta reflete o reconhecimento de que oportunidades de acessar ecossistemas tão preservados e isolados são raras.
Para a ciência brasileira e internacional, a missão representa um avanço significativo no entendimento da evolução em ambientes montanhosos tropicais. Ao coletar exemplares que podem ser endêmicos, a equipe contribui diretamente para a taxonomia e a conservação da biodiversidade. O trabalho não está isento de desafios, exigindo que os cientistas enfrentem condições adversas de terreno e a presença constante de insetos, mantendo o foco na catalogação sistemática dos organismos encontrados durante a permanência no platô.
Ao final da expedição, o vasto volume de material coletado passará por análises detalhadas. A expectativa é que esses dados revelem não apenas novas espécies, mas também informações cruciais sobre como a flora e a fauna se adaptaram ao isolamento geográfico dos tepuis ao longo de milênios. A integração entre a experiência acadêmica e a estrutura logística do Exército viabiliza, assim, uma das explorações científicas mais abrangentes já realizadas no território amazônico.
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